Devoção Popular
Mariologia

A impactante aparição de Nossa Senhora de Lourdes

A mensagem de Lourdes ecoa com urgência profética em nossos dias, onde o homem contemporâneo, herdeiro direto do racionalismo cético, continua a buscar a salvação em si mesmo.

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Às portas da quaresma, tempo de profunda penitência e conversão, a memória das aparições de Nossa Senhora em Lourdes nos prepara convidando-nos, desde já, a olhar para a necessidade que temos da cura das nossas enfermidades espirituais.

Todos os anos, o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes recebe cerca de 6 milhões de peregrinos [1]. Pessoas do mundo inteiro acorrem à gruta de Massabielle a fim de implorar à Virgem Mãe de Deus as graças necessárias para a cura de seus males. Mas qual é a história por trás de tanta devoção? Como uma aparição que aconteceu há 168 anos continua falando através dos séculos, e qual a sua relevância para os dias de hoje?

Deixai vir a mim as criancinhas

O ano era 1858. A França havia passado por inúmeras turbulências, instabilidades políticas e o Império havia sido restaurado por Napoleão III há pouco. Ouvia-se ainda o eco das revoluções anticlericais, dos protestos contra o poder dos reis e o avanço de uma industrialização promovida à base do racionalismo cientificista que negava tudo aquilo que não fosse comprovado pela ciência. Nas grandes províncias da filha predileta da Igreja [2], soava silenciosamente um profundo protesto contra a fé, que tinha por intuito relegar a religião a uma esfera privada ou própria dos ignorantes.

Mas as aparições a que nos propomos a comentar não aconteceram em grandes e turbulentos centros urbanos. Lourdes é uma pequena cidade que se localiza perto da fronteira francesa com a Espanha, cuja separação se dá naturalmente pela cordilheira dos pirineus. Nas fotos atuais, vemos uma cidade sempre marcada pelas montanhas ao fundo, o que transmite um ar bucólico para o relato que se fará a seguir.

Passemos aos protagonistas. A vidente de Lourdes, como em quase todas as aparições de Nossa Senhora, era simples e humilde. Seu nome era Maria Bernarda, mais conhecida familiarmente como Bernadette Soubirous [3]. Era a mais velha de nove irmãos, dentre os quais apenas quatro tinham sobrevivido. Sua família não tinha posses. Eram pobres e passavam por diversas necessidades. Os pais, outrora, foram donos de um moinho de farinha, mas pela má administração do negócio perderam o pouco que tinham. Moravam agora de favor em uma casa de um só cômodo, em péssimas condições, e que nos tempos passados tinha sido utilizada para prender criminosos da cidade.

A pequena Bernadette Soubirous “morava” em dois lugares. Como sua família era pobre, aos verões trabalhava como pastorinha de rebanhos e criada da família Aravant, na cidade vizinha, em troca de comida. Aos invernos voltava para a casa dos pais, cuja companhia muito lhe alegrava.

A menina era asmática, vivia doente, tossia sempre e, dadas as condições, passava fome. Não podia ir à escola e aprender a ler como os outros, pois seu trabalho era necessário no cuidado da casa e dos irmãos a fim de que os pais pudessem trabalhar. De família católica, muito devota, desde pequena viu nos exemplos de virtudes dos pais na prática da vivência do Evangelho; desde muito cedo aprendeu a rezar o rosário, e o fazia todos os dias exemplarmente. Era sorridente, possuía uma grande inocência; naturalmente educada e tímida - visto que sua família não era benquista na cidade - mas com um trato muito gentil. Brincava com as outras crianças, cuidava dos irmãozinhos, ajudava sua família.

Entre as idas e vindas de uma cidade a outra, Bernadette, que na época tinha cerca de 14 anos, começou a preparar-se para receber a primeira comunhão. Crescia dentro de si o amor a Deus, embora tivesse dificuldades com a memorização das verdades de fé pelo fato de não conseguir ler. Mal sabia ela que naquele inverno de 1858, a sua vida - e a de milhares de outros - mudaria para sempre.

As aparições na gruta de Massabielle

Aconteceu como um dia comum. Era uma quinta-feira, 11 de fevereiro. De manhã o frio tilintava do lado de fora das janelas do pequeno cômodo da família Soubirous. Depois de um café da manhã muito simples, faltou lenha.

Há um bosque por perto. Soube-se por boatos que naquele dia alguns trabalhadores tinham derrubado árvores nos arredores, e que era possível encontrar restos de madeira que serviriam para a lareira. A um convite providencial de uma vizinha que passava por ali, Bernadette e a irmã dirigem-se ao bosque para recolher alguns gravetos e tomam o caminho que passa pela gruta de Massabielle, uma enorme rocha calcada no flanco arborizado da montanha. A escolha do caminho não foi acidental. Por ali, fazendeiros geralmente levavam os porcos quando era necessário deslocá-los, o que provavelmente fazia uma trilha no caminho.

No meio do trajeto, as meninas deparam-se com o largo, mas raso, Rio Gave. A pequena Maria Bernarda, com medo de piorar suas crises de asma que se acentuavam no inverno, detém-se na margem enquanto as outras atravessam. De dentro da gruta, a vidente ouve um ruído repentino e medonho de uma grande rajada de vento. Ao voltar-se para trás, percebe que nem uma folha havia se mexido. Aproximando-se um pouco mais, nota que na rocha maciça, um pouco mais acima do nível do chão, havia uma abertura de forma ogival, junto à qual brotou uma roseira silvestre, cujos ramos recaíam para fora.  

É neste pequeno lugar que uma luz inunda a gruta e revela uma figura feminina arrebatadora vinda do fundo da nuvem brilhante. Tratava-se de uma donzela muito jovem, aparentando ter quase a mesma idade de Bernadette, trajando um vestido branco reluzente, um longo véu e um cinto azul. A menina celeste tinha sob os pés a roseira silvestre com rosas amarelas. Ela também tinha entre as mãos um terço dourado com contas brilhantes.

Bernadette, fascinada, cai imediatamente de joelhos com o olhar fixo naquela imagem. Retira do seu bolso o seu terço em profunda contemplação e põe-se a rezá-lo com a figura, que não mexia os lábios, mas juntamente com ela passava o dedo por entre as contas. Ao término da oração, a Senhora sorri e faz uma reverência graciosa antes de desaparecer, levando consigo a luz sobrenatural; no local, resta apenas o nicho rochoso vazio e a roseira silvestre, cujos ramos pendem novamente em silêncio.

Daí em diante, Nossa Senhora apareceu outras 17 vezes para a pequena Bernadette na mesma gruta. Todas essas aparições deram-se em um intervalo de 5 meses. Diferentemente de outros eventos, em que a Rainha do Céu dirigiu-se com palavras expressas e desejou que sua mensagem se espalhasse; em Lourdes, não há ordens expressas e direcionadas ao grande público. Há, contudo, uma profunda carga simbólica e espiritual no ocorrido da qual falaremos mais adiante.

A notícia se espalhou aos poucos pela pequena cidade. Os pais da pequena Bernadette, a princípio, não deram crédito. Parecia tudo uma fantasia infantil. No coração da vidente, nutriu-se, entretanto, uma profunda saudade daquela senhora do céu, o que a impeliu a voltar mais uma vez ao local com algumas amigas três dias depois. Dessa vez, munida de água benta - a fim de aspergir a imagem e ter certeza de que não era uma ilusão do demônio -, ao término da segunda dezena do terço, a Senhora reaparece. A vidente entra em um estado de profundo êxtase transfigurando-se com uma beleza que impressiona as outras meninas presentes. Nossa Senhora permanece com ela por um tempo e depois desaparece mais uma vez. Em casa, a menina enfrenta represálias, proibições e questionamentos severos, mas mantém-se fiel aos relatos dos ocorridos.

Foi somente na terceira aparição, três dias depois, que houve o primeiro diálogo entre a Virgem Maria e a pequena Bernadette. É possível que muitas coisas tenham sido ditas naquele colóquio, mas a nós foram dadas ser conhecidas apenas duas: Nossa Senhora prometeu à menina que não iria fazê-la feliz neste mundo, mas somente no próximo; e que ela voltasse ali durante quinze dias.

Santa Bernadette Soubirous

A natureza desse encontro revela muito sobre como serão também os próximos. Embora com o tempo as notícias das aparições fossem se espalhando e a cidade de Lourdes tenha começado a receber pessoas como nunca antes, os encontros ficaram de todo muito reservados entre as partes. Pouco se conhece daquilo que foi dito à pequena Bernadette da parte da Mãe de Deus. Há ocasiões, porém, que se sobressaem, e revelam detalhes importantes acerca da mensagem espiritual do acontecido.

A primeira delas ocorreu na sexta aparição, no dia 21 de fevereiro. Após as intromissões de um médico presente que queria testar a veracidade dos fatos cutucando a roseira onde apareceu Nossa Senhora com uma vara durante o êxtase, a Mãe de Deus, olhando para longe, esboça uma expressão de profunda dor — como se contemplasse o mundo e o mal —, suspira tristemente e faz um pedido: “Orai pelos pecadores”.

A sétima aparição é objeto de investigações contínuas. No dia 23 de fevereiro, Bernadette recebe a incumbência de guardar consigo três segredos, e que não deve contá-los a ninguém. Fato é que eles foram com ela para o túmulo, porque mesmo depois de vários anos, nada foi dito. Tinham a mesma natureza que os de La Salette ou de Fátima alguns anos depois? Eram avisos sobre castigos que viriam? Não sabemos.

No oitavo encontro a visão é marcada por alegria e acolhimento; a Virgem sorri não apenas para a vidente, mas parece contemplar com agrado todo o povo presente. No entanto, a atmosfera muda drasticamente quando o semblante de Bernadette reflete a súbita tristeza da Virgem diante dos pecados do mundo. A menina começa a chorar e, em um ato de extrema humildade, desloca-se de joelhos beijando o chão pedregoso da Gruta. Ouvindo as lamentações da Senhora sobre o mal e o orgulho humano, Bernadette volta-se para a multidão com o rosto banhado em lágrimas e repete a ordem urgente que acabara de receber: “Penitência! Penitência! Penitência!”.

Na nona aparição, a Senhora apresenta-se com um semblante grave e transmite uma ordem específica a Bernadette: “Ide beber à Fonte e lavar-vos”. Como não havia qualquer nascente conhecida naquele local árido, a menina dirige-se instintivamente ao rio Gave. Contudo, é imediatamente detida e corrigida pela Virgem Maria, que aponta o dedo para um canto seco no fundo da Gruta, indicando onde ela deveria procurar a água. A vidente obedece e começa a cavar o chão com as próprias mãos. A tarefa revela-se penosa e repugnante: a água que começa a brotar está misturada com terra, formando um lodo sujo. A menina hesita três vezes ao tentar levar o líquido à boca, lutando contra o nojo, mas mantém o olhar fixo na Senhora, buscando nela a coragem e a aprovação para cumprir o sacrifício exigido.

Na quarta tentativa, vencendo a repulsa, Bernadette finalmente consegue beber a água lamacenta e lava o rosto com ela, ficando com a face manchada de terra. Além disso, obedecendo a um impulso interior vindo da visão, ela come algumas ervas amargas que cresciam no local. Esses gestos, que aos olhos da multidão pareciam insanidade, marcaram o momento milagroso em que a fonte de Lourdes foi descoberta.

Alguns dias depois, dois cegos recuperavam a vista com aquela água miraculosa. Uma criança que, com dezoito meses, nunca tinha andado, tendo sido mergulhada nela, recuperava instantâneamente a saúde, e dois dias depois corria espontâneamente para lançar-se nos braços da mãe. E a partir daquele tempo, os carismas não mais cessaram.

Decorreram, a partir daí, inúmeras objeções, boatos e teorias sobre os fatos ocorridos. Fato é que milhares de pessoas recorriam à fonte da gruta de Massabielle, e também à Bernadette para que contasse sua versão das visões. Houve um assédio, sobretudo do governo francês para suprimir a devoção popular que se instaurara naquele local. Boatos, investigações inconclusas, perícias químicas nas águas da fonte… nada foi capaz de invalidar a sobrenaturalidade dos fatos. O que mais impressiona é que, a pequena Bernadette, que ainda não tinha sequer feito a sua primeira comunhão, suportava de forma heróica a curiosidade das pessoas e nunca sequer mudava um detalhe da história que ela mesma tinha presenciado. A família, muito honesta, mesmo passando muitas dificuldades, nunca aceitou sequer uma doação depois do início das aparições, para que não parecessem aproveitar-se das coisas de Deus.

No dia 25 de março, dia da anunciação do Senhor, durante a décima quinta aparição, dá-se o evento culminante. Durante a reza do terço, cresce em Bernadette uma necessidade urgente e corajosa de perguntar, mais uma vez, o nome daquela “Senhora”.

A menina insiste na pergunta três vezes. Nas duas primeiras tentativas, recebe apenas sorrisos benevolentes e saudações amáveis. Na terceira vez, porém, a Virgem assume um ar grave e humilde: junta as mãos à altura do peito, olha para o céu e, estendendo os braços lentamente em direção a Bernadette, faz finalmente a revelação histórica no dialeto local:

“Eu sou a Imaculada Conceição” (Que soy er'Imaculada Cumcepsiú).

Com dificuldade de pronunciar as palavras, pois nada disso tinha chegado ainda à pequena aldeia de Lourdes, a vidente guarda consigo o nome que ouviu da sua Senhora.

É importante ressaltar que nesse ínterim o cotidiano da pequena escolhida tornou-se um verdadeiro calvário: assediada por interrogatórios incessantes, ela enfrentava o martírio da exposição pública com respostas inspiradas, enquanto as autoridades civis, em vã tentativa de sufocar a fé, erguiam barreiras para vedar o acesso à sagrada Gruta de Massabielle.

Mas os decretos humanos não podem conter a graça divina. No dia da festa de Nossa Senhora do Carmo, sentindo o chamado irresistível da Virgem, Bernadette dirige-se à margem oposta do Rio Gave, pois o acesso direto lhe fora negado. Ali, de joelhos nos prados e com o olhar elevado sobre as cercas, ela contempla pela décima oitava - e última vez - a sua Senhora, que lhe sorria mais bela e radiante do que nunca, transcendendo qualquer obstáculo terreno. O ciclo das aparições encerra-se num êxtase de profunda paz, selando no coração da vidente a eterna presença da Imaculada.

A credibilidade das aparições de Lourdes fundamenta-se não apenas nos eventos iniciais ou na existência da fonte, mas no testemunho ininterrupto e consistente de Bernadette ao longo de vinte anos de vida adulta. Se a vidente tivesse falecido precocemente, a história poderia ser descartada como uma ilusão infantil; contudo, sua firmeza e racionalidade provaram a objetividade dos fatos. Longe de ser uma farsante que repete um texto decorado — o que falharia diante de contradições —, Bernadette agia como uma verdadeira missionária, adaptando suas respostas a cada interlocutor e defendendo a verdade com argumentos sempre renovados, sem jamais alterar a essência da narrativa.

A mensagem de Lourdes

A coleta da missa de hoje reza da seguinte forma: “Ó Deus (…) socorrei a nossa fraqueza para que nós, que celebramos a memória da Virgem Imaculada, Mãe de Deus, possamos, por sua intercessão, ressurgir de nossas iniquidades” [4]. Este talvez seja o cerne da mensagem das aparições. Como dissemos, elas acontecem em um meio hostil à cultura cristã. O século XIX traz as primeiras manifestações de um racionalismo cientificista, que, na pergunta acerca dos males existentes no ser humano desconsidera os efeitos do pecado original.

Se excluímos o decaimento da criação divina de toda a equação antropológica, o mal que se apresenta em nós e em nossas inclinações não tem razão de ser senão em causas externas a nós mesmos. Essas causas mostram-se, nas diversas teorias filosóficas e sociológicas, profundamente vazias de sentido existencial ao homem, e não respondem, com a completude que só a Revelação é capaz de responder, os questionamentos mais profundos do ser humano.

“Hoje, o próprio sentido do pecado em parte desapareceu, porque se perde o sentido de Deus. Pensou-se construir um humanismo sem Deus, e a fé corre sem cessar o perigo de parecer uma originalidade de algumas pessoas sem função necessária para a salvação de todos. As consciências tornam-se obscuras, como no tempo do primeiro pecado, não distinguindo o bem e o mal. Muitos não sabem mais o que é o pecado, ou não ousam mais sabê-lo, como se este conhecimento viesse alienar a própria liberdade”. [5]

Em diversas aparições, o convite de Nossa Senhora para fazer penitência e rezar pelos pecadores recordava as pessoas da época - e também a nós hoje -, a quebrar com uma concepção de autossuficiência e reconhecer a necessidade do auxílio divino diante das nossas misérias. Isso culmina com a manifestação de sua identidade na décima quinta aparição, que não revela o seu nome, mas sim um dos seus títulos mais importantes, derivados do dogma da maternidade divina: a sua Imaculada Conceição.

Ao proclamar-se assim, a Virgem desfere um golpe mortal na soberba intelectual daquele século. Se Ela é a única preservada da mancha original, isso confirma, por contraste, que toda a humanidade carrega essa ferida que a ciência humana, por si só, é incapaz de cicatrizar. O racionalismo, que buscava construir um paraíso terrestre baseado no progresso técnico e na negação do sobrenatural, encontra na Gruta de Massabielle o seu maior obstáculo: a pureza de Maria reflete a nossa própria impureza, lembrando-nos que o mal não é apenas um “erro social” corrigível por políticas ou decretos, mas uma doença da alma que necessita da Graça.

Quando a Senhora ordena que Bernadette beba da água lamacenta e coma ervas amargas, Ela impõe uma humilhação à razão orgulhosa. A cura, portanto, não começa pelo milagre físico que os médicos buscavam explicar ou negar, mas pelo ato de humildade que dobra os joelhos e reconhece a própria pequenez. A água que brota límpida da lama torna-se o símbolo perfeito da alma que, reconhecendo sua miséria e confiando na intercessão divina, é purificada e restituída à sua dignidade original.

Portanto, a mensagem de Lourdes ecoa com urgência profética em nossos dias, onde o homem contemporâneo, herdeiro direto daquele mesmo racionalismo cético, continua a buscar a salvação em suas próprias invenções. Ao olharmos para a Imaculada, somos convidados a fazer o caminho inverso ao do mundo: em vez de ocultarmos nossas falhas sob a máscara da autossuficiência, devemos apresentá-las com confiança àquela que é “Saúde dos Enfermos”. Pois somente quem aceita a realidade de sua doença espiritual pode, verdadeiramente, suplicar pelo remédio que vem do Céu e ressurgir, enfim, de suas iniquidades.

“Minha boa Mãe, tende piedade de mim; eu me entrego inteiramente a vós para que me entregueis ao vosso querido Filho a quem eu quero amar de todo o meu coração. Minha boa Mãe, dai-me um coração fervoroso por Jesus”. [6]

O santo rosário

Cabe-nos aqui ressaltar mais um ponto. Desde o primeiro momento na Gruta de Massabielle, o Santo Rosário apresenta-se como essencial. Em um tom de deboche, as amigas de Bernadette afirmavam que ela “só sabia rezar terços”, o que demonstrava a devoção com a qual a santa o fazia.

O Rosário aparece também nas mãos da bela Senhora, que, tendo um terço de contas douradas, ensina silenciosamente que essa antiquíssima e salutar oração mariana possui um grande valor no céu. Notemos que, antes de qualquer diálogo ou milagre, é o desfiar das contas que parece estabelecer uma conexão entre a terra e a glória celeste. Bernadette, em sua simplicidade, compreende esse sinal imediato e, instintivamente de joelhos, empunha seu próprio terço, encontrando na repetição das Ave-Marias o refúgio seguro contra o temor inicial e a abertura para o mistério.

É comovente notar a pedagogia da Virgem durante essa prece: Ela não recita as saudações angélicas — pois seria dirigir-se a si mesma —, mas acompanha maternalmente a vidente, deixando as contas deslizarem por seus dedos divinos em perfeita sincronia. Esse gesto revela uma atenção profundamente materna; Maria não é uma espectadora distante, mas uma companheira de oração que ajuda a santificar as súplicas que lhe chegam. O seu silêncio orante, quebrado apenas para a glória da Trindade confirma que a récita do Rosário é uma prática tão salutar e agradável a Deus que merece a própria participação gestual da Sua Mãe Santíssima.

“Aqui, a Virgem convida Bernadete a recitar o Rosário desfiando ela mesma as contas. Esta gruta tornou-se, assim, a sede de uma admirável escola de oração, onde Maria ensina a todos a contemplar com um fervoroso amor o rosto de Cristo”. [7]

Num século marcado pelo racionalismo frio e pela autossuficiência humana, o Rosário surge em Lourdes como a arma fundamental para as batalhas do espírito. Contra os ruídos do mundo, as inquietações da alma e as investidas do inimigo, a Virgem oferece a cadência rítmica da oração como um escudo que pacifica e fortalece. Foi através dessa “corrente” abençoada que Bernadette encontrou forças para suportar os interrogatórios, as zombarias e as provações futuras, transformando a fragilidade de uma menina pobre e asmática na fortaleza de uma testemunha inabalável da fé.

Portanto, a mensagem da Gruta nos recorda que, para vencer os males cotidianos e as nossas próprias iniquidades, não bastam as forças humanas; é imprescindível o auxílio da Graça, mediado pelas mãos da Imaculada. O Rosário é, assim, a escola da humildade e a via da penitência, onde cada conta rezada é um passo que nos afasta da soberba e nos aproxima do coração de Deus. Em Lourdes, a Virgem nos ensina que a verdadeira cura começa na alma que reza, e que jamais haverá solidão para quem, com o terço na mão, caminha sob o olhar atento e amoroso da Rainha do Céu.

Referências

[1] America: The Jesuir Review. Millions of pilgrims travel to Lourdes each year. What made ir such an important symbol of hope and healing?.

[2] O país recebe esse título por ter sido a primeira nação a se converter quando da queda do Império Romano, o que se consolidou pelo batismo do Rei Clovis I por volta de 496. Desde então, a França tornou-se uma grande defensora da fé na Europa, até a eclosão de revoluções anticlericais.

[3] As descrições acerca das aparições de Nossa Senhora em Lourdes foram descritas a partir dos relatos de Yver Collette, em seu livro “A humilde Santa Bernadette”, publicado em 1956.

[4] Missal Romano. Memória de Nossa Senhora de Lourdes.

[5]  São João Paulo II. Viagem Apostólica a Lourdes. Visita à gruta de Lourdes. Palavras do Santo Padre. nº 2.

[6]  São João Paulo II. Peregrinação do Papa João Paulo II ao Santuário de Lourdes por ocasião do 150º aniversário da promulgação do dogma da Imaculada Conceição. Palavras do Santo Padre na Introdução à recitação do Rosário. nº 3.

[7] Ibid. nº 1.