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Sofrimento

Santa Josefina Bakhita: a santa do amor, do perdão e da esperança

Santa Josefina Bakhita amou a Deus através de suas dores. Ela nos ensina que a constância no bem e o amor incondicional a Deus são as chaves que abrem as portas da eternidade.

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O testemunho da “Flor Africana” surge como um remédio para a desesperança moderna, ensinando-nos que nenhuma corrente é capaz de aprisionar um coração que se sabe amado por Deus. Conheça a história de uma alma que, ao encontrar o seu verdadeiro “Patrão”, decidiu ajoelhar-se para beijar as mãos de seus antigos algozes.

No dia 25 de dezembro de 2024, nas celebrações da missa do Natal do Senhor, o Papa Francisco abriu a porta santa da Basílica de São Pedro dando início ao 28º jubileu da história da Igreja, cujo tema central foi a virtude da Esperança. No discurso de abertura, o santo padre exortava os fiéis a viverem este período como um “tempo da misericórdia e de perdão, para que a cada homem seja aberto o caminho da esperança que não desilude” [1].  

Embora o ano jubilar tenha se encerrado em 6 de janeiro deste ano, no dia em que a liturgia faz memória de Santa Josefina Bakhita - a flor africana -, as virtudes tão caras ao ano jubilar mais uma vez saltam aos nossos olhos pelo testemunho de uma vida luminosa.

A esperança que não desilude

Sabemos que ela nasceu em 1869, na aldeia de Ogossa, na região Darfur, sultanato do Sudão na África central. A família camponesa habitava em uma aldeia simples, de vida frugal. A sua vida teria sido como a de qualquer outro contemporâneo, se não fosse a invasão e destruição da aldeia por forças mercenárias de Al-Zubayr Mansur, poderoso traficante de escravos. O seu longo calvário começa aos cinco anos, quando vê a sua irmã mais nova ser raptada dentro de sua própria casa. Dela, nunca mais teria notícias. [3]

Vivendo em um cenário de profunda instabilidade, como se não bastasse a tragédia do desterro, aos nove anos os seus tormentos acentuam-se de maneira irremediável. Em uma brincadeira com uma amiga no bosque perto da casa de sua família, cai na emboscada de dois traficantes de crianças, que, sob ameaça de morte, forçam-na a acompanhá-los - acorrentada pelo pescoço e pelos pés - por um longo dia de marcha. Descalça, com inúmeros cortes nos pés e ferimentos no corpo, ao fim do dia é perguntada pelos seus algozes acerca de seu nome. O trauma do ocorrido é tão grande que a menina se esquece de sua própria identidade, o que faz com que os dois homens a batizem ironicamente de “Bakhita”, que em árabe significa “afortunada”.

Escravizada, foi vendida muitas vezes a diferentes donos desde idade muito tenra. Sofreu muito nas mãos de homens maus. São terríveis os relatos dos biógrafos que nos informam de inúmeros episódios de espancamento, humilhação e maus tratos. Diversas vezes foi usada como objeto de desabafo para frustrações conjugais dos donos, sofrendo açoites que arrancavam tiras de sua pele. Dentre as terríveis atrocidades, a mais marcante é a que se deu quando estava debaixo do jugo de um general otomano. Conta-se que seu patrão, por pura crueldade, decidiu submeter ela e uma outra companheira, a um processo de escarificação [4]. Depois de ser obrigada a assistir o suplício de sua colega, seu corpo recebeu cerca de 114 incisões de navalha, seguidas pela aplicação de sal para forçar cicatrizes em relevo. A lenta recuperação em uma esteira improvisada mais tarde foi considerada por ela mesma como “um milagre da Providência”, visto que as condições insalubres impediam qualquer tipo de cura.

Chama atenção o fato de que, mesmo em meio a tormentos horríveis, aquela jovem alma que viria a servir tão bem a Nosso Senhor depois de conhecê-lo, sentia já despontar dentro de si alguma esperança:

“Mesmo no fundo do desalento e da tristeza, quando era escrava, nunca desesperei, porque sentia em mim uma força que me sustentava. Eu não morri porque o Bom Deus me havia destinado a coisas melhores”. [5]

O gérmen dessa esperança, é uma misteriosa antecipação da graça em uma alma que, mesmo mergulhada no abismo, se recusava a cair no desespero. O espírito permanecia intacto, guardado por uma certeza interior de que a dor não possuía a última palavra sobre a sua existência. Nessa época, ela ainda não conhecia Nosso Senhor. Mas a semente do Verbo já estava plantada em seu coração. Essa pequena muda irá desabrochar quando finalmente conhecer o seu verdadeiro Senhor.

Ao transpor esse testemunho para os desafios do nosso cotidiano, devemos meditar sobre as ansiedades e o vazio que tantas vezes marcam o nosso estilo de vida. Em uma sociedade que frequentemente desmorona diante de contrariedades passageiras ou que se vê órfã de sentido perante o sofrimento, Santa Bakhita nos ensina que a verdadeira liberdade nasce da consciência de que somos filhos amados de Deus.

A esperança que não desilude é aquela que permite ao cristão manter a serenidade no meio das tribulações — sejam elas profissionais, familiares ou de saúde —, na certeza de que Deus nunca se engana. É preciso trocar a murmuração pelo abandono confiante, e descobrir que, para quem vive sob o olhar do Senhor, nenhuma circunstância é um obstáculo intransponível, mas uma oportunidade para que a luz da eternidade comece a brilhar já nas tarefas mais simples.

Os anos de paz e o encontro com Jesus Cristo

Em 1883, houve um divisor de águas. Ao ser vendida em Cartum para o cônsul italiano Callisto Legnani, encerrou-se uma década de brutalidade sistêmica. Bakhita agora adentra em um mundo onde o respeito, o alimento regular e a ausência de açoites eram a nova norma.

Embora estivesse sob um patrão muito bondoso, é apenas quando foi “presenteada” à família Michieli que pôde iniciar uma nova forma de vínculo que, embora ainda operasse sob a lógica da posse, era permeada por um afeto inédito. No interior de Veneza, ela tornou-se a “babá de ouro” da pequena Alice, filha de seus donos, encontrando no riso da criança o antídoto necessário para apagar os ecos das ordens ríspidas de seus antigos donos.

Santa Josefina Bakhita na vida religiosa

Sob os cuidados da Irmã Marietta Fabretti, Bakhita finalmente deu nome ao Deus que, segundo ela, como vimos acima, já sentia em seu coração desde a infância na África.  No Instituto das Irmãs Canossianas, uma instituição com mais de trezentos anos de história no acolhimento de refugiados, ela deixou de ser uma estrangeira exótica para se tornar uma catecúmena, mergulhando em uma rotina de oração e estudo que começou a dissipar as sombras de seu passado traumático. Tendo sido tão humilhada e “coisificada”, ela custava a acreditar que o Criador do universo pudesse amar uma pessoa tão pequena a ponto de chamá-la de “filha”. No entanto, à medida que sua fé crescia, o sentimento de desvalorização deu lugar a um profundo sentimento de gratidão.

O seu processo de conversão tornou-se definitivo quando teve de decidir entre o chamado do verdadeiro Patrão e o amor da sua nova família. Aconteceu que os seus donos a queriam levar de volta ao Sudão para cuidar de um empreendimento. Isso acarretaria, contudo, em um afastamento definitivo de sua nova fé.  

A “moretta”, como era carinhosamente chamada, manteve um “não” inabalável diante da proposta da família Michieli, impulsionada pela audácia de quem tem coragem de vender tudo para adquirir a pérola preciosa do Evangelho [6]. O impasse, que mobilizou o Patriarca e autoridades civis, encerrou-se com o veredito histórico do Procurador do Rei que afirmava que a escravidão era inexistente em solo italiano, garantindo a Bakhita liberdade sobre o seu destino.

Assim, enquanto a família partia de volta para a África em uma separação regada a lágrimas, ela permaneceu na Itália, trocando definitivamente o estatuto de “objeto de valor” pela dignidade de filha de Deus, fazendo sua morada na casa Daquele que passava a ser o seu único e verdadeiro patrão.

Em 9 de janeiro de 1890, recebeu os sacramentos da iniciação cristã. Revestida de branco e consagrada à Virgem Maria, assumiu uma nova identidade composta por cinco nomes (Josefina, em honra à sua madrinha; Margarida, por sua madrinha de crisma; além de Fortunata, Maria e a manutenção de Bakhita.), um gesto litúrgico que simbolizou a reconstrução da dignidade que lhe fora roubada na infância. Testemunhas descreveram o evento como uma verdadeira transfiguração: o semblante outrora marcado pela melancolia deu lugar a um rosto radiante e pacificado, evidenciando que as cicatrizes invisíveis de sua alma haviam sido enfim tocadas pela promessa da vida eterna.

“(Bakhita) até então só tinha conhecido patrões que a desprezavam e maltratavam ou, na melhor das hipóteses, a consideravam uma escrava útil. Mas agora ouvia dizer que existe um “paron” acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é bom, a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia, tinha-a criado; mais ainda, amava-a. Também ela era amada, e precisamente pelo “Paron” supremo, diante do qual todos os outros patrões não passam de miseráveis servos. Ela era conhecida, amada e esperada; mais ainda, este Patrão tinha enfrentado pessoalmente o destino de ser flagelado e agora estava à espera dela “à direita de Deus Pai”. Agora ela tinha esperança; já não aquela pequena esperança de achar patrões menos cruéis, mas a grande esperança: “eu sou definitivamente amada e aconteça o que acontecer, eu sou esperada por este Amor”. [7]

Consolidada em sua nova fé, ela tomou a decisão de permanecer no Instituto das Canossianas, reconhecendo-o como sua verdadeira morada espiritual e declinando convites para integrar famílias abastadas. A partir desse marco, ela mergulhou em uma vida de oração, dedicando-se a conhecer profundamente o Deus que, embora sempre presente em sua intuição desde as estepes africanas, finalmente possuía um nome e um rosto em seu coração.

O apostolado de cada dia

Em Schio, onde viveu por quarenta e cinco anos, Josefina transformou a rotina ordinária em um campo de apostolado fecundo. Parecia não haver fronteiras entre o sagrado e o cotidiano: trabalhava diante dos fogões da cozinha com a mesma diligência que demonstrava no cuidado do altar, ensinando que a santidade reside no cumprimento perfeito da vontade divina através das tarefas mais simples e repetitivas. Ao equilibrar o cuidado ativo de Marta com o coração contemplativo de Maria [8], ela tornou-se uma lição viva de dignidade e fé, irradiando a presença de Deus para toda a comunidade através de sua disponibilidade total e de um sorriso que desarmava qualquer preconceito inicial.

Durante a Primeira Guerra Mundial, sua caridade desdobrou-se no cuidado incansável aos soldados feridos, a quem servia como enfermeira e bálsamo espiritual, compartilhando sua história como um remédio para as almas. Este período de entrega coincidiu com a redação de sua pequena autobiografia, História Maravilhosa, que a projetou involuntariamente como uma celebridade religiosa na Itália — fama que ela abraçou com profunda humildade e um toque de humor, utilizando a atenção indesejada para conduzir os corações ao seu Mestre.

Cabe-nos aqui fazer uma observação. Ao contrário da lógica do ressentimento, que frequentemente transforma o oprimido em um novo opressor ou alimenta o ódio contra as figuras de autoridade, a santa africana rompeu o ciclo da violência ao descobrir-se, no olhar do Crucificado, como uma filha infinitamente amada. Esse sentimento de aceitação divina permitiu-lhe “humanizar” até mesmo aqueles que a feriram, enxergando neles não inimigos a serem combatidos, mas almas necessitadas de misericórdia. Para ela, perdoar não significava justificar o erro, mas padecer com as vítimas e compadecer-se dos agressores, compreendendo que só a força do amor de Deus é capaz de libertar ambos de suas correntes invisíveis. [9]

“Se eu me encontrasse com esses negreiros que me capturaram, e inclusive com os que me torturaram, eu me ajoelharia para beijar-lhes as mãos. Porque, se não tivesse acontecido isso, eu não seria cristã nem religiosa” [10]

Sua vida tornou-se uma autêntica parábola do perdão, provando que essa virtude nada tira do homem, mas lhe acrescenta dignidade. Ao meditar as palavras de Jesus na Cruz, ela compreendeu que o perdão recebido e oferecido é como uma “carícia de Deus” que desenvenena a memória e devolve a alegria de viver. [11] Essa liberdade espiritual permitiu que ela transformasse o serviço — outrora uma imposição brutal — em um dom livre de si mesma, carregando voluntariamente os fardos alheios com um zelo misericordioso.

Também nós, hoje, precisamos desmascarar as nossas próprias hipocrisias e superar conflitos cotidianos. O caminho para a santidade humilde passa, necessariamente, por afastar o olhar de si mesmo para reconhecer no outro um irmão, tão frágil e necessitado de Deus quanto nós.

O encontro com “O Senhor”

Em dezembro de 1943 Josefina celebrou suas Bodas de Ouro de vida religiosa sob o carinho de toda a cidade de Schio. Logo após o jubileu, sua saúde deteriorou-se gravemente, acumulando diagnósticos de asma, artrite e elefantíase que a confinaram a uma cadeira de rodas. Longe de se entregar às reclamações, ela viveu esse período sob a ótica de um abandono total. A dor física tornou-se para ela uma participação mística no Calvário do Senhor e ao mesmo tempo no Monte Tabor, transformando sua fragilidade em uma oferta constante de amor ao “Parón”, seu patrão celestial.

Sua visão sobre a eternidade era pautada por muita humildade e uma confiança inabalável na misericórdia de Deus. Ela encarava a morte como o encontro esperado com o seu “Amigo definitivo”, preparando-se para o Juízo com a simplicidade e o bom humor de quem reconhece a própria pequenez.

Conta-se que ela imaginava-se apresentando ao Pai com duas malas: uma pequena, contendo seus pecados, e outra imensamente pesada, repleta dos méritos infinitos de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Antes do julgamento, dizia ela que se deteria em uma breve conversa com São Pedro - já que este possui as chaves do Reino dos Céus. Pediria que ele já trancasse de volta os portões do paraíso abertos para a sua chegada, pois de perto da presença de Deus ela jamais desejaria sair. [12]

O último combate deu-se em dezembro de 1946, quando uma pneumonia dupla trouxe à tona, no delírio da febre, os fantasmas das correntes de sua infância traumática. Em seus momentos derradeiros, a agitação de quem pedia para soltar os grilhões deu lugar à calma após receber os últimos sacramentos. No dia 8 de fevereiro de 1947, um sábado dedicado à Nossa Senhora, ela expirou suavemente com um sorriso que transfigurava sua face. Suas últimas palavras inteligíveis foram um chamado à “Madonna” - a Mãe de Deus, com a serenidade de uma existência que soube transformar o horror da escravidão na liberdade plena de quem se sabia filha de Deus.

Essa fortaleza em seu leito de morte revela que a verdadeira vitória cristã consiste na permanência do amor em meio ao sofrimento extremo. No último combate, sua alma não recuou; pelo contrário, foi na fragilidade absoluta que sua constância reverberou com mais força. A fortaleza é o fruto maduro de uma vida de oração, permitindo que o cristão, mesmo sob o peso das “correntes” físicas ou psicológicas, mantenha o olhar fixo no Senhor.

Santa Josefina Bakhita amou a Deus através de suas dores. Seu exemplo nos exorta a vivermos as nossas próprias tribulações com a mesma nobreza de espírito, compreendendo que a constância no bem e o amor incondicional a Deus são as chaves que abrem as portas da eternidade.  

Referências

[1]  Papa Francisco. Homilia do Natal do Senhor na Abertura da Porta Santa e Início do Jubileu ordinário. 24 de dezembro de 2024.

[2] As notas acerca da vida de Santa Josephina Bakhita neste artigo foram retiradas de duas fontes principais: a primeira é a breve biografia oficial publicada pela Santa Sé por ocasião da inscrição do nome da santa no calendário litúrgico. Embora seja uma descrição mais breve, abrange os principais eventos de sua vida de forma sintética e precisa. A outra fonte é de uma das mais recentes biografias escritas. Publicada originalmente em Francês por Hervé Roulet no ano de 2015, a biografia “Joséphine Bakhita. L’esclave devenue sainte”, foi consultada na sua versão espanhola publicada pelas edições RIALP de Madrid.  

[3] É uma técnica de modificação do corpo que consiste em produzir cicatrizes através de instrumentos cortantes. Tem origem nos rituais de passagem de algumas tribos da África central, cujo significado  cultural é marcar a transição da infância para a idade adulta. O intuito da técnica é fazer com que as feridas a cicatrizar criem relevo na pele. Para tal, é necessário adotar um procedimento muito doloroso que tende a retardar a cicatrização em muitos dias. É admirável ver a recuperação de Bakhita, visto que é muito provável que até mesmo os cuidados básicos com as feridas lhe foram negados e o retorno às atividades laborais ser acelerado pela obrigação do trabalho na casa de seus patrões.

[4] Hervé Roullet. La esclava indomable. Biografía de Bakhita, la santa sudanesa. Madrid: Ediciones RIALP, 2019. p. 54.

[5] Mt 13, 45-46.

[6] Papa Bento XVI. Carta Encíclica Spes Salvi. Sobre a esperança cristã. nº3.

[7] cf. Lucas 10, 38-42.

[8] Papa Francisco. Audiência geral, 11 de outubro de 2023.

[9] Hervé Roullet. La esclava indomable. Biografía de Bakhita, la santa sudanesa. Madrid: Ediciones RIALP, 2019. p. 83.

[10] Ibid. p. 84.

[11] Ibid. p. 92.