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Por que São Brás é invocado contra os males da garganta?

São Brás foi um grande bispo. Ele é invocado contra os males da garganta, mas também nos ajuda a reconhecer a fé apostólica, para não morrermos asfixiados pelo pecado.

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São Brás é um santo muito amado no Brasil. Não são poucos os fiéis que recorrem à sua intercessão, sobretudo contra os males da garganta. A bênção da garganta, por exemplo, ocorre ao final da missa em sua memória. O sacerdote abençoa os fiéis com duas velas cruzadas sob a garganta deste.

Nós o invocamos com confiança contra os males da garganta por causa de um milagre que ocorreu em sua vida. É uma pena, porém, que poucos fiéis meditem o sentido espiritual deste milagre. Não se trata apenas da saúde física. Há muita profundidade espiritual nessa devoção.

O texto de hoje é um convite para você crescer em sua devoção a São Brás. Primeiro, vamos entender como o ministério episcopal foi importante para a formação do Novo Testamento. Você sabia que São Brás era um bispo? Na seção seguinte, consultaremos alguns trechos das cartas paulinas sobre o episcopado. Por fim, veremos como a missão episcopal é importante para entendermos por que invocamos São Brás contra os males da garganta.

Os Bispos e o Novo Testamento

A Igreja é anterior ao Novo Testamento. Não se trata apenas de uma questão cronológica. A gestação do Novo Testamento ocorreu na Igreja, sem a qual seus livros perderiam o sentido original.

A Bíblia pressupõe a Igreja. O Novo Testamento não era um manual de usuário para uma Igreja ainda dentro de uma embalagem. [1]

É a partir da Igreja que nós podemos acessar com segurança o que o Espírito Santo quis revelar. Ele falou a homens concretos, que viviam dentro de estruturas institucionais e culturais claramente definidas.  

A Igreja precedeu as Escrituras. Na verdade, todos os livros do Novo Testamento, exceto os Evangelhos, estão recheados de descrições de uma comunidade já bem estabelecida, com políticas distintas, práticas e padrões de devoção, com suas próprias estruturas e métodos para tomada de decisões. [2]

Mais que redigir os Livros Sagrados, coube à Igreja preservá-los como um todo. Essa foi uma tarefa complexa, na qual os bispos desempenharam um papel decisivo. Naturalmente, eles foram conduzidos pelo Espírito Santo.

Você já percebeu que a Bíblia não diz quais são seus Livros? Naquela época havia obras literárias de grande valor espiritual, cheias de verdade e sabedoria, mas elas não entraram na Bíblia porque a Igreja discerniu que não haviam sido inspiradas pelo Espírito Santo.

Não somente os livros separadamente presumem a existência da Igreja, mas também a coleção destes livros como um todo. Uma autoridade tinha de determinar quais livros seriam incluídos no Novo Testamento e quais não seriam, porque as Escrituras não vieram com um índice que indicasse quais livros inspirados deveriam constar na Bíblia. [3]

Até aqui revisamos a relação que existe entre a Bíblia e a Igreja. Vimos que os bispos desempenharam um papel muito importante. Vamos agora dar um passo a mais.

Os Bispos no Novo Testamento

Nos Atos dos Apóstolos e na Carta aos Hebreus, há menções a um jovem chamado Timóteo. Ele era filho de mãe judia e pai grego (At 16, 1). São Paulo dedicou-lhe duas cartas e, além disso, fez-lhe um alto elogio na Carta aos Filipenses.

Espero, no Senhor Jesus, que eu em breve possa enviar-vos Timóteo, para que eu também me reconforte com as notícias que tiver de vós. Não tenho nenhum outro com igual disposição e que sinceramente se interesse por vós. Todos os outros buscam os seus próprios interesses e não os de Jesus Cristo. Ele, porém, vós sabeis que prova deu: como um filho junto do pai, ele se pôs comigo a serviço do evangelho. (Fl 1, 19-22)

Foi a este grande homem, cuja fidelidade ficou registrada na Palavra de Deus, que São Paulo confiou sua própria autoridade apostólica. Cabia-lhe, por exemplo, ordenar candidatos ao sacerdócio com muita prudência.

Não te apresses a impor as mãos sobre ninguém, nem te tornes solidário com pecados alheios. Conserva-te puro. (1Tm 4, 22)

A transmissão de autoridade na Igreja é chamada de “sucessão apostólica”. Suceder alguém significa ocupar a sua função, com a autoridade que lhe é própria. Desse modo, de geração em geração, a autoridade dos Apóstolos é transmitida por meio das ordenações episcopais.

Tendo recebido a autoridade e a missão de Paulo, ele é encarregado de passar à próxima geração tanto o ministério sacerdotal como a fé apostólica. Timóteo deve transmitir estas tradições da mesma que as recebeu de Paulo: através da instrução pública, da imposição sacramental das mãos e do testemunho de sua vida (2Tm 1, 6.13-14; 3, 10; 1Tm 5, 22; 6, 20). [4]

Como é bom ser católico! Se formos fiéis à Igreja, nós temos a garantia de que receberemos a instrução que Jesus Cristo nos deixou para a nossa salvação. Não seremos levados por modas, nem por particularismos.

A Igreja é toda do Espírito, mas possui uma estrutura, a sucessão apostólica, à qual compete a responsabilidade de garantir a permanência da Igreja na verdade doada por Cristo, da qual deriva também a capacidade do amor. [5]

Vimos até aqui que os bispos são sucessores dos Apóstolos. Nós devemos ter muito respeito por esses homens, rezando sempre por eles.

São Brás, um grande bispo

São Brás foi um bispo do século IV.  Sua missão era a mesma de Timóteo. Como todo bispo, deste ou de outro século,  também São Brás zelava pela unidade da Igreja em sua diocese.

Os bispos individualmente são o visível princípio e fundamento da unidade em suas Igrejas particulares. [6]

Não se surpreenda com o termo “Igreja particular”. Significa “diocese” em linguagem mais técnica. E qual era a diocese de São Brás? Ele viveu na Armênia, um país da região do Cáucaso, que fica entre a Europa e a Ásia. Boa parte dos antigos relatos datam seu martírio no ano de 316, na época em que governou Licínio.

Todos os relatos concordam que São Brás foi bispo de Sebaste na Armênia, e a maioria dos registros situam seu martírio no reinado de Licínio (cerca de 316). [7]

Conta-se que, certa vez, um menino corria o risco de morrer por causa de uma espinha de peixe que obstruiu a sua garganta. Embora estivesse preso, curou-o. São Brás é, então, invocado como intercessor para a cura de todos males da garganta.

Na época da perseguição de Licínio, ele foi levado como prisioneiro por ordem do governador Agrícola. Os perseguidores governamentais encontraram-no no deserto, em uma caverna, para onde havia se retirado. Enquanto estava na prisão, realizou uma cura milagrosa em um menino que tinha uma espinha de peixe na garganta e corria o risco de morrer sufocado. [8]

A cura da garganta é real. Cristo realiza milagres pela intercessão dos santos. Mas é possível fazer uma interpretação do sentido espiritual daquela cura. O bispo deve curar  almas, para que os fiéis não morram sufocados sem fé.

Não basta termos a Bíblia em mãos, ou escutá-la em pregações. É preciso, para viver em Cristo, entrar em relacionamento com os irmãos na Igreja. A vida com Cristo não é abstrata, nem desencarnada. Ela ocorre em um local concreto — a Igreja.  

De uma forma diferente da dos apóstolos, temos também nós uma experiência verdadeira e pessoal  da presença do Senhor Ressuscitado. Através do ministério apostólico, é o próprio Cristo quem alcança quem é chamado à fé. A distância dos séculos é superada, e o Ressuscitado se oferece vivo e operante por nós, no hoje da Igreja e do mundo. [9]

Um Chamado à Comunhão

A vida de São Brás é uma mensagem para todos nós. Temos que viver a vida concreta de nossa diocese, em nossas paróquias, se quisermos respirar espiritualmente. Não se vive a fé somente pela internet, mas também nas missas presenciais. É preciso fazer um esforço para participar da comunidade, enfrentando com maturidade as dificuldades que surjam.

Que São Brás interceda por nós!

Referências

[1]  Scott Hahn. Razões para Crer. Lorena, SP: Cléofas, 2017. p. 82.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Scott Hahn & Curtis Mitch & Dennis Walters. As Cartas de São Paulo aos Tessalonicenses, a Timóteo e a Tito: Cadernos de Estudo Bíblico. Campinas, SP: Ecclesiae, 2020. p. 82.

[5] Papa Bento XVI. Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo: nas Origens da Igreja. São Paulo: Paulus, 2021. p. 23.

[6] Catecismo da Igreja Católica, 886.

[7] Catholic Answers, Encyclopedia.  São Brás [tradução livre].

[8] Ibid.

[9] Papa Bento XVI. Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo: nas Origens da Igreja. São Paulo: Paulus, 2021. p. 35.