Há quem entenda que todo conteúdo de fé deva estar expresso na Bíblia. Para alguns, essa pretensão seria até uma obviedade. No entanto, não foi o que os Apóstolos ensinaram. Não basta ter a Bíblia em mãos; é preciso interpretá-la corretamente.
A fé cristã não é uma “religião do Livro”. [1]
Nem por isso a nossa fé afasta-se da Escritura. Muito pelo contrário! Somente a partir da totalidade do que Cristo nos deixou é que podemos compreender o sentido correto da Bíblia, fugindo do risco de uma interpretação meramente pessoal.
Deveis saber, antes de tudo, que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular (2Pd 1, 20)
Neste artigo, você vai aprender que os sete sacramentos e a Bíblia são indissociáveis. Primeiro, vamos entender o que é um sacramento. A explicação será apoiada por uma passagem do Evangelho. Em seguida, vamos encontrar os sete sacramentos no Novo Testamento. Nele, há um claro testemunho da vida sacramental da Igreja.
A face visível de um mistério invisível
Você sabe o que é um sacramento? Sacramento significa, em latim, “mistério”. Trata-se do aspecto visível daquilo que é invisível. Pode parecer confuso à primeira vista, mas vai ficar bem claro com o exemplo abaixo.
Certa vez, enquanto Jesus passava, a borla de seu manto foi tocada por uma mulher que sofria de hemorragia fazia doze anos. Ela tinha muita fé. Acreditava que o Senhor podia curá-la de sua doença.
Pensava consigo mesmo: “Se eu conseguir ao menos tocar em seu manto, ficarei curada” (Mt 9, 21)
Aconteceu conforme a fé que ela tinha. A hemorragia estancou-se imediatamente. O Evangelho, então, relata que o Senhor percebeu o que tinha acontecido porque uma força havia saído dele. É uma informação muito bonita.
Percebendo que uma força saíra dele, Jesus logo se voltou, no meio da multidão, e perguntou: “Quem tocou minhas vestes?” (Mc 5, 30)
Eram muitos os que rodeavam Jesus, tocando-o. Os Apóstolos, liderados por Pedro, chegaram a ficar surpresos com a pergunta. Mesmo assim, o Senhor insistiu que aquele toque era diferente dos outros.
Jesus, porém, disse: “Alguém me tocou. Eu percebi uma força saindo de mim” (Lc 5, 46)
Eis o mistério dos sacramentos! Eles são forças que saem do Corpo de Cristo; são a face visível de um mistério invisível. O Corpo de Jesus era visível a todos que estavam com a mulher hemorroíssa, mas a força que fluía dele era invisível.
Os sacramentos são “forças que saem” do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante. [2]
Nós também, como a mulher adoecida, podemos tocar o Corpo de Cristo para receber graças. O mistério de Jesus não era apenas para aquela geração. Por isso, o Senhor instituiu a Igreja. Ela é o Corpo de Cristo (Ef 1, 23-23).
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O Batismo
Algumas pessoas pensam que o batismo seria uma espécie de tomada de consciência da fé, ou uma espécie de compromisso público. Elas estão completamente enganadas! O batismo regenera a alma.
Foi o que o Senhor ensinou a Nicodemos, como ficou relatado no Evangelho de São João. Referindo-se ao batismo, Jesus deixou claro que ele produz um renascimento pela água e pelo Espírito.

Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo: se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus.” (Jo 3, 5)
A Igreja insiste que o batismo é uma incorporação real em Cristo. Ele une a pessoa a Cristo, que, morto e ressuscitado, lhe transmite uma vida superior. O mergulho na água é um sinal visível de uma purificação interior, que divide a vida em antes e depois da recepção deste sacramento.
Acaso ignorais que todos nós, batizados no Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo fomos sepultados juntamente com ele na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da glória do Pai, assim também nós caminhemos em uma vida nova. (Rm 6, 3-4)
O Crisma
O sacramento do crisma é, tecnicamente, chamado de Confirmação. Ele transmite o dom do Espírito Santo àqueles que já foram batizados, unindo-os mais intimamente à Igreja. Você já foi crismado? É um passo necessário para aprofundar no santo batismo.
A recepção deste sacramento é necessária à consumação da graça batismal. [3]
A imposição das mãos é a origem deste sacramento. Os Apóstolos comunicavam aos fiéis já batizados a graça de Pentecostes. A inclusão do óleo para unção foi reconhecida bem cedo na tradição da Igreja.
Chegando ali oraram pelos habitantes da Samaria, para que recebessem o Espírito Santo; pois o Espírito ainda não viera sobre nenhum deles; só tinham recebido o Batismo em nome do Senhor Jesus. Pedro e João impuseram-lhe as mãos, e eles receberam o Espírito Santo. (At 8, 15-17)
É pouco conhecido entre nós, mas no Oriente católico o crisma é ministrado junto com o santo batismo. Nada impede que mais de um sacramento seja ministrado em certos casos previstos pela norma canônica.
A Eucaristia
A Eucaristia é a fonte de vida da Igreja. Ela é o Corpo e Sangue de Cristo — vivo, presente e real. É conhecida dos fiéis a narração da instituição da Eucaristia nos Evangelhos, bem como o discurso do Pão da Vida.
Enquanto estavam comendo, Jesus tomou o pão e pronunciou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo”. E tomando na mão o cálice, deu graças e passou-o a eles, dizendo: “Bebei dele todos, pois este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado em favor de muitos, para o perdão dos pecados”. (Mt 26, 26-28)
Não devemos, porém, esquecer-nos de que São Paulo não estava presente entre os Doze quando da instituição da Eucaristia. Mesmo assim, ele não só recebeu instruções eucarísticas diretamente do Ressuscitado, como também advertiu o povo de que não comungassem sacrilegamente. É uma advertência perene, em face da grandeza do Santíssimo Sacramento.
De fato, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: Na noite em que ia ser entregue, o Senhor Jesus tomou o pão (....) Portanto, todo aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente será culpado contra o corpo e o sangue do Senhor. Examine-se cada um a si mesmo e, assim, coma do pão e beba do cálice. (1Cor 11, 23.27-28)
A Confissão
O sacramento da Confissão, também conhecido como Penitência, é um poder que o Senhor concedeu à Igreja no dia de Pentecostes. Trata-se de uma participação do Corpo de Cristo em sua autoridade divina, por meio da qual os pecados podem ser perdoados pelos sacerdotes.
“A quem perdoardes os pecados, lhes serão perdoados; a quem os retiverdes, lhe serão retidos.” (Jo 20, 23).
Essas palavras, Cristo disse somente aos apóstolos e não a toda a multidão que os seguia. Portanto, só aos apóstolos e seus sucessores foi dado o poder de perdoar. Não faria sentido dizer que a Igreja é o Corpo de Cristo se ela não estivesse investida do poder conferido à humanidade de Jesus. Seus sacerdotes são os meios pelos quais Jesus Ressuscitado perdoa os pecados ordinariamente.
No dia de Sua ressurreição, Jesus apareceu aos Seus discípulos e lhes disse: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E aí, Ele fez algo curioso: partilhou com eles — os primeiros sacerdotes da Nova Aliança — Sua própria vida e Seu próprio poder. [4]
O Evangelho é sempre atual! Ainda hoje muitos se escandalizam com essa autoridade que o Senhor concedeu à Igreja. Agem como alguns que, há dois mil anos, também se escandalizaram quando Ele perdoou os pecados de um paralítico (Mc 2, 6).
Aqueles que testemunharam esse ato de Jesus sabiam que estavam diante de uma decisão a tomar: ou eles acreditavam fervorosamente em Sua divindade, ou O condenavam como um blasfemador. Em seus corações, os escribas O acusaram de blasfêmia. [5]
Buscar a confissão é um ato de fé. Quem se ajoelha perante o sacerdote reconhece que Jesus é Deus e Homem e que continua a agir visivelmente por meio da Igreja.
A Unção dos Enfermos
A doença grave é uma experiência decisiva na vida das famílias. A Igreja não fica distante do drama de seus filhos. Por determinação do Senhor, há um sacramento voltado para este momento crítico.
O sacramento da Unção dos Enfermos, ou Extrema Unção, visa transmitir um dom do Espírito Santo aos enfermos. É uma graça de reconforto, de paz e de coragem para enfrentar as dificuldades do estado de vida que se apresenta.
O principal dom deste sacramento é uma graça de reconforto, de paz e de coragem para vencer as dificuldades próprias do estado de enfermidade grave ou da fragilidade da velhice. [6]
A Unção dos Enfermos é descrita explicitamente por São Tiago, com ministros, sinal sensível e eficácia espiritual e corporal. O óleo é ungido em nome do Senhor, provocando efeitos até mesmo de perdão dos pecados. Não se pode tratá-lo como se fosse um mero óleo medicinal!
Alguém dentre vós está enfermo? Mande chamar os anciãos da Igreja, para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo no nome do Senhor. A oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o reerguerá. E se tiver cometido pecados, receberá o perdão. (Tg 5, 14-15)
Não se deixe enganar pelo uso do termo “ancião”. Ele possui um valor próprio no Novo Testamento. Provém do termo grego presbyteros, que significa tanto “ancião” quanto “presbítero”. Há, portanto, duas opções de tradução em português, mas no idioma original a palavra é uma só. Seu sentido é o de “padre”.
Um “ancião” ou “presbítero” passou, assim, a se referir a um ministro ordenado da Igreja, que pregava o Evangelho e administrava os sacramentos (1Tm 5, 17; Tt 1, 5; Tg 5, 14). A palavra inglesa para padre, priest, deriva deste termo grego. [7]
A Ordenação
O sacramento da Ordem marca a alma do fiel batizado para que este sirva de instrumento de Cristo em favor de toda a Igreja. É uma consagração irreversível. Ele se transmite de geração em geração pela imposição das mãos de alguém que recebeu de outrem.
Por isso, quero exortar-te a reavivar o dom que Deus te concedeu pela imposição de minhas mãos. (2Tm 1, 6).
Somente quem recebeu o dom do ministério apostólico pode transmiti-lo pela imposição das mãos. O sacramento da Ordem — é por isso que falamos de “ordenação dos sacerdotes”, por exemplo — é o sacramento que dá continuidade à missão apostólica de geração em geração.
Timóteo recebeu a totalidade dessa graça quando Paulo e outros anciãos o ordenaram bispo pela imposição das mãos. [8]
Servir à Igreja! Essa é a vocação de todo ministro ordenado. Todo apoio que você concede ao clero de sua diocese é uma ajuda à missão da Igreja.
O Matrimônio
Dos sete sacramentos, o matrimônio é o único que é celebrado pelos leigos. O sacerdote ou diácono assiste a celebração, para que não haja erros. Mas são os noivos que o ministram a si mesmos.
Segundo a tradição latina, são os esposos que, como ministros da graça de Cristo, se conferem mutuamente o sacramento do Matrimônio, expressando diante da Igreja seu consentimento. [9]
Os cônjuges assumem uma grande responsabilidade perante Deus, contando assim com a Sua graça. Você já meditou sobre o valor espiritual do casamento? É tão elevada a dignidade do matrimônio que São Paulo o comparou à união de Cristo com a Igreja (Ef 5,25–32) e o próprio Senhor falou da indissolubilidade do vínculo conjugal durante a vida.
Eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe. (Mt 19, 6)
Conclusão
Conhecer a Bíblia e saber interpretá-la corretamente é fundamental para conservarmos a fé na Igreja. Tudo aquilo que a Igreja faz e ensina é completamente bíblico. Portanto, a vida sacramental da Igreja é um ensinamento do tempo apostólico e de grande importância.
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Que Nossa Senhora, Mãe da Igreja, interceda por todos nós!
Referências
[1] Catecismo da Igreja Católica, 108.
[2] Catecismo da Igreja Católica, 1116.
[3] Catecismo da Igreja Católica, 1285.
[4] Scott Hahn. Senhor, Tende Piedade Lorena, SP: Cléofas, 2018. p. 37.
[5] Ibid, p. 36.
[6] Catecismo da Igreja Católica, 1520.
[7] Scott Hahn & Curtis Mitch & Dennis Walters. As Cartas de São Tiago, São Pedro e São Judas: Cadernos de Estudo Bíblico. Campina, SP: Ecclesiae, 2020. p. 41.
[8] Scott Hahn & Curtis Mitch & Dennis Walters. As Cartas de São Paulo aos Tessalonicenses, a Timóteo e a Tito: Cadernos de Estudo Bíblico. Campinas, SP: Ecclesiae, 2020. p. 80.
[9] Catecismo da Igreja Católica, 1623.






