A liturgia faz memória da Apresentação do Menino Jesus no templo de Jerusalém a cada dia dois de fevereiro, em uma festa dedicada a esse mistério. Ao longo do ano, estamos habituados a meditar sobre esse acontecimento no Rosário.
A primeira parte do Rosário contém cinco mistérios (...). Esses mistérios são chamados de gozosos por causa da alegria que deram a todo universo. [1]
Foi grande a alegria de Maria e José. Cumprindo a Lei de Moisés, levaram o Menino Jesus ao Templo de Jerusalém para apresentá-lo (Lc 2, 22). Nesse momento, Simeão e Ana aclamaram-no como o Messias esperado.
Com Simeão e Ana, é toda a espera de Israel que vem ao encontro de seu Salvador (a tradição bizantina designa com esse termo tal acontecimento). Jesus é reconhecido como o Messias tão esperado, “luz das nações” e “Glória de Israel”, mas também “sinal de contradição”. [2]
Há, no entanto, um aspecto do mistério da Apresentação do Senhor que é pouco conhecido pelos fiéis. Alguns até se constrangem de anunciá-lo durante a récita coletiva do rosário, por falta de conhecimento da Bíblia. Trata-se da purificação de Maria.
Neste artigo você vai entender o que significa a purificação de Maria e qual a importância de meditarmos sobre esse aspecto do mistério gozoso da Apresentação do Senhor. Primeiro, voltaremos ao Antigo Testamento para entendermos bem o que significa essa purificação. Em seguida, contemplaremos o seu sentido espiritual. Por fim, vamos deixar uma sugestão de meditação para a sua oração pessoal.
Cumprindo a Lei de Moisés
Naquela época, toda mulher judia que desse à luz um filho homem devia observar as prescrições do Livro do Levítico. Nele, o Senhor pediu, por meio de Moisés, que essas mulheres passassem por um período de quarentena antes de serem readmitidas na vida religiosa judaica.
O Senhor falou a Moisés: “Dize aos israelitas: Se uma mulher conceber e der à luz um menino, será impura durante sete dias como nos dias de sua menstruação. Depois que, no oitavo dia, o menino for circuncidado, ela ficará em casa mais trinta e três dias para a purificação do sangramento; não tocará nenhuma coisa santa, nem entrará no Santuário até se completarem os dias de sua purificação”. (Lv 12, 1-4)
Essa purificação decorria da sensibilidade para com o sangramento. Não tinha sentido moral algum, como pode parecer à primeira vista. Oferecer um sacrifício por esse tipo de purificação era uma prática muito comum na vida religiosa das mulheres de Israel.
Estritamente falando, essas ofertas purificavam as mulheres de impurezas legais e não tinham ligação alguma com falhas ou culpas morais. Maria aqui oferece um par de rolas ou dois pombinhos (Lc 2, 24; Lv 12, 8). [3]
Nós podemos chamar essa purificação de “purificação mosaica” ou “purificação levítica” de Maria, para enfatizar que não se trata de purificação moral. Era apenas o cumprimento de uma norma legal.
Maria e José cumpriram a Lei de Moisés ao apresentarem o que o Livro do Levítico determinava. Veremos agora qual foi o sentido espiritual dessa obediência a este artigo da Lei de Moisés.
Obediência no Amor
Não foram poucos os santos que chegaram ao discernimento teológico de que a purificação prevista no Livro do Levítico não se aplicava a Maria. São Beda, por exemplo, argumentou que, como tanto a concepção quanto o nascimento do Senhor Jesus ocorreram por meios milagrosos, Maria encontrava-se isenta das obrigações legais previstas para a mulher que deu à luz:

Se examinares as palavras da lei com cuidado, descobrirás que a Mãe de Deus, não tendo se unido a homem, não estava obrigada pelo preceito da lei. Com efeito, não era considerada impura toda mulher que desse à luz, mas a que havia concebido de homem, das quais se distinguia aquela que concebeu e deu à luz sendo virgem. [4]
Mas se era assim, por que será que Maria submeteu-se à Lei de Moisés e foi ao templo para oferecer o sacrifício prescrito? É que a sua obediência não era um legalismo farisaico, mas um ato de amor a Deus.
Na sua narração da infância de Jesus, são Lucas ressalta o modo como Maria e José eram fiéis à Lei do Senhor. Cumprem com profunda devoção tudo aquilo que é prescrito depois do parto de um primogênito varão. [5]
O zelo por tudo que é santo conduz à alma a um zelo pelos irmãos. É o que nós vemos em Maria. Se Ela não tivesse aceitado o rito mosaico de purificação, teria causado um grande escândalo em Israel. Agir assim seria então um transtorno na vida espiritual de muitos.
Vários Padres da Igreja sustentavam que Maria não tinha nenhuma pureza legal para expiar. Ela, entretanto, sujeitou-se à Lei Mosaica, a fim de não escandalizar os outros. Sua submissão foi semelhante à de Jesus, que não tinha pecado, mas recebeu o batismo de arrependimento de João (Mt 3, 13-15). [6]
Vimos até aqui que a prescrição do Livro do Levítico não tinha cunho moral e que Maria expressou seu amor a Deus e ao próximo ao submeter-se àquela prescrição sem que necessitasse. Daremos agora um passo a mais.
Duas Prescrições
A purificação mosaica da mãe não era a única prescrição que as famílias judaicas deviam observar. Era preciso ainda oferecer a um sacerdote o resgate pelo menino, que era considerado uma propriedade de Deus.
Para o primogênito varão, que segundo a Lei de Moisés é propriedade de Deus, prescrevia-se ao contrário o resgate, estabelecido na oferta de cinco siclos, a serem pagos a um sacerdote em qualquer lugar. Isto, em memória perene de que, na época do Êxodo, Deus salvou os primogênitos dos judeus (cf. Êx 13, 11-16). [7]
Nenhum dos gestos, porém, precisava ser realizado no templo de Jerusalém. Mesmo assim, Maria e José foram até Jerusalém, onde ofereceram o sacrifício que podiam — o dos pobres (Lc 2, 24). Desse modo, a Palavra de Deus nos revela como a devoção de Maria e José estava enraizada em Jesus.
É importante observar que para estes dois gestos — a purificação da mãe e o resgate do filho — não era necessário ir ao Templo. No entanto, Maria e José querem cumprir tudo em Jerusalém, e São Lucas mostra como toda esta cena converge para o Templo, e portanto está centrada em Jesus que entra no Templo. [8]
O Evangelho ensina que o Menino Jesus é a realização da ida de Maria e José ao Templo de Jerusalém, pois Ele é o sentido do próprio Templo. Todo o Antigo Testamento converge para Cristo, encontrando nele o seu apogeu.
E eis que, precisamente através das prescrições da Lei, o acontecimento principal se torna outro, ou seja, a «apresentação» de Jesus no Templo de Deus, que significa o gesto de oferecer o Filho do Altíssimo ao Pai que O enviou (cf. Lc 1, 32.35). [9]
O Menino que Maria e José apresentaram no Templo de Jerusalém é o próprio Deus encarnado. É bonito contemplar que a razão de ser daquele Templo — e dos nossos corações — estava nos braços de Maria. Quem via o Menino via o próprio Deus (Jo 14, 9).
Jesus Cristo é a revelação do Pai. E como é que o Filho nos revela o Pai? Pela encarnação. O Verbo, o Filho, fez-se homem, e Nele e por Ele, conhecemos a Deus. Cristo é Deus posto ao nosso alcance, sob uma expressão humana. [10]
É a partir da alegria do mistério da Encarnação que podemos acolher a beleza espiritual que foi conferida a Maria. Deus quis encarnar-se e, assim, ter uma Mãe. A missão de Maria foi inigualável e estende-se até nós.
Deus Pai só deu ao mundo seu Unigênito por Maria. Suspiraram os patriarcas, e pedidos insistentes fizeram os profetas e os santos da lei antiga, durante quatro milênios, mas só Maria o mereceu, e alcançou graça diante de Deus (Lc 1, 20), pela força de suas orações e pela sublimidade de suas virtudes. [11]
Um Convite à Oração
Todos nós devemos observar as leis divinas e eclesiais. Elas foram instituídas para a nossa salvação. Mas será que, como Maria, enxergamos o sentido espiritual das nossas atitudes na vida religiosa?
Não basta fazer bons atos; é preciso que eles provenham do coração, do desejo de entrar em comunhão com Deus. Hoje é um bom dia para pedir ao Espírito Santo a graça de examinarmos a qualidade da nossa vida espiritual.
Que Nossa Senhora e São José intercedam por todos nós!
Referências
[1] São Luís Maria Grignion de Montfort. O Admirável Segredo do Santíssimo Rosário. Petrópolis, RJ: Vozes 2018. p. 64-65.
[2] Catecismo da Igreja Católica, 529.
[3] Scott Hahn & Curtis Mitch & Dennis Walters. O Evangelho de São Lucas — Cadernos de Estudo Bíblico. Campinas, SP: Ecclesiae, 2015. p. 39.
[4] Santo Tomás de Aquino. Catena Áurea — Exposição Contínua sobre os Evangelhos. Volume 3: Evangelho de São Lucas. Campinas, SP: Ecclesia, 2020. p. 102.
[5] Papa Bento XVI. Homilia de 02 de Fevereiro de 2013.
[6] Scott Hahn & Curtis Mitch & Dennis Walters. O Evangelho de São Lucas — Cadernos de Estudo Bíblico. Campinas, SP: Ecclesiae, 2015. p. 39.
[7] Papa Bento XVI. Homilia de 02 de Fevereiro de 2013.
[8] Ibid.
[9] Ibid.
[10] Beato Columba Marmion. Jesus Cristo, Vida da Alma. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. p. 56.
[11] São Luís Maria Grignion de Montfort. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022. p. 22-23.






