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O que a conversão de São Paulo ensina à Igreja de hoje?

O ódio de São Paulo à Igreja não era motivado por um estilo de vida mundano, mas por um zelo egoísta e envaidecedor.

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É bastante conhecida a história da conversão de São Paulo. Ela ficou narrada nos Atos dos Apóstolos. Causou perplexidade à época. De inimigo furioso dos cristãos, ele tornou-se o apóstolo que levou o Evangelho para além de Israel.

Foi um acontecimento extraordinário. Antes que chegasse a Damasco, aonde Paulo se dirigia para prender os cristãos da cidade, o Senhor manifestou-se a ele. Sua vida mudou a partir desse acontecimento e, com ela, a história da humanidade.

É impossível imaginar o que teriam sido os últimos dois mil anos se São Paulo não tivesse existido. [1]

São Paulo foi o autor de muitas cartas do Novo Testamento. Não é exagero afirmar que boa parte do plano divino da Redenção foi-lhe revelado, tendo sido exposto a nós nelas. Até mesmo São Pedro, que conviveu com Jesus, impressionou-se com a profundidade dos escritos paulinos.

Isso já vos escreveu nosso amado irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi dada. Ele trata disso, também, em todas as suas cartas, se bem que nelas se encontrem algumas coisas difíceis, que pessoas sem instrução e vacilantes deformam para sua própria perdição. (2Pd 3, 15b-16)

São muitos os ensinamentos que se pode extrair da conversão de São Paulo. Neste artigo, gostaríamos de convidar você a meditar sobre dois deles. Em primeiro lugar, veremos que não há verdadeira grandeza espiritual sem Jesus. Quem se recusa a entrar em plena comunhão com a Igreja compromete algo da própria caminhada. Em segundo lugar, vamos aprender que tudo que acontece na história - inclusive a nossa vida - tem valor de eternidade. Nada é vão sob o sol. Por fim, deixaremos uma sugestão para sua vida espiritual.

Santidade é viver em Cristo

Antes de sua conversão, Paulo era um homem de vida admirável para os critérios judaicos de sua geração. Assim, por exemplo, ele havia sido circuncidado, observava as prescrições de seu rito e era fiel à Lei de Moisés nos mínimos detalhes.

Fui circuncidado no oitavo dia, sou da estirpe de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus. quanto à observância da Lei, fariseu; no tocante ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que vem da Lei, irrepreensível. (Fl 3, 5)

É importante observar que seu ódio à Igreja não era motivado por um estilo de vida mundano, como costuma acontecer com muitos inimigos de Cristo. Paulo era um homem zeloso que levava a sério a sua fé. Foi a  luz de Cristo que lhe fez enxergar que seus esforços de piedade pouco ou nada valiam.

A conversão de São Paulo, Apóstolo. Pintura de Parmigianino.
Paulo, antes da conversão, era um observante, com uma observância fiel até o fanatismo. Mas, à luz do encontro com Cristo, compreendeu que com isso tinha procurado edificar-se a si mesmo, à sua própria justiça, e que, com toda essa justiça, tinha vivido para si mesmo. [2]

O problema de Paulo é que, no fundo, seu fervor não se voltava para Deus, mas para si mesmo. Esforçava-se para crescer perante si mesmo. Seus atos religiosos eram uma forma de egoísmo espiritual, sob aparência de devoção. No entanto, tendo reconhecido sua miséria, Paulo passou a desprezar aqueles vícios do passado.

Essas coisas, que era lucro para mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar a Cristo. (Fl 3, 7-8)

Essa é uma lição muito importante para nós. Não há santidade verdadeira que não esteja unida à humanidade de Jesus. Engana-se quem pretende seguir outro caminho! Jesus não é apenas um grande homem. Ele é o próprio Deus encarnado, o caminho indispensável para recebermos as graças do Alto.  

Jesus Cristo não é santo apenas em si mesmo; Ele é a nossa santidade. Toda a santidade que Deus destinou para as almas está depositada na humanidade de Cristo, é nessa fonte que a vamos haurir. [3]

Ao fazer-se carne, no ventre da Virgem Maria, o Filho assumiu como Sua a natureza humana. A partir de então, o Senhor Deus tornou-se acessível. O invisível fez-se visível no meio de nós. Toda plenitude da divindade foi derramada na humanidade de Jesus

O Filho único, que vive eternamente no seio do Pai, une-se, no tempo, a uma natureza humana, mas numa união tão estreita e íntima, que esta natureza, embora perfeita em si mesma, pertence em absoluto à pessoa divina a que está unida. A vida divina comunicada em toda a sua plenitude a esta humanidade faz dela a própria humanidade do Filho de Deus: é a admirável obra da Encarnação. [4]

É por isso que os sacramentos da Igreja são tão importantes. A vida divina que habita plenamente em Jesus, o próprio Verbo de Deus encarnado, chega a nós de modo palpável por meio deles. Nós precisamos tocar em Jesus.

A santidade é, pois, um mistério de vida divina, comunicada e recebida. [5]

Vimos até aqui que a conversão de São Paulo evidencia a importância de entrarmos na Igreja e nela permanecermos para recebermos a vida de Jesus, sem a qual nenhuma verdadeira santidade é possível. Vamos agora dar um passo a mais.

A Dignidade da Vida

Quando o Senhor Ressuscitado interpelou o perseguidor Paulo — que, em hebraico se diz “Saulo” —, convidou-o logo à conversão. Antes, porém, fez-lhe saber que perseguir os cristãos era perseguir a Si mesmo.  

Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saul, Saul, por que me persegues?” Saulo perguntou: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem estás perseguindo”. (At 9, 4-5)  

Em outras palavras, Jesus se identificou com a Igreja! Você percebe o efeito prático dessa verdade para a nossa vida? A fé é um tesouro que carregamos em frágeis potes de argila (1Cor 4, 7). Ela nos une a Jesus, dando assim uma dignidade extraordinária à nossa vida, mas faz com que reconheçamos a nossa fragilidade interior.

Essa mútua compenetração entre Cristo e o cristão, característica do ensinamento de Paulo, completa o seu discurso sobre a fé. A fé, de fato, mesmo unindo-nos intimamente a Cristo, realça a distinção entre nós e ele. Mas, segundo Paulo, a vida do cristão também possui um componente que poderíamos dizer “místico”, porque obriga a uma identificação nossa com Cristo e de Cristo conosco. [6]

Se Jesus Cristo está unido à Igreja, como a cabeça ao corpo, tudo aquilo que vivemos já não vivemos fechados em nós mesmos. Vivemos em Cristo. Nele, a vida adquire seu sentido pleno.

Vós todos sois o corpo de Cristo, e individualmente, sois membros desse corpo. (1Cor 12, 27).

Essas são palavras que devem infundir grande alegria em nossos corações. A vida é cheia de provações e dores, no entanto ela possui um sentido que o mundo desconhece. A cada passo,  a cada momento, somos amparados por um Amor que não se esgota. Esse relacionamento pessoal com Cristo começa aqui e dura por toda a eternidade.

A nossa vida cristã se baseia na rocha mais estável e segura que se pode imaginar. Dela tiramos a nossa energia, como escreve o apóstolo: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4, 13). [7]

A Alegria da Conversão

Vivemos em um mundo que sofre bastante. Mas a luz de Cristo, que chegou a São Paulo a caminho de Damasco, pode chegar a muitos por meio da sua vida. Todos nós somos chamados a amar o próximo.

O amor não é passivo, mas vai ao encontro do outro; ser próximo não depende da proximidade física ou social, mas da decisão de amar. [8]

O dia em que a Igreja celebra a memória da conversão de São Paulo é um bom momento para nós examinarmos a qualidade de nossa conversão. Aquele momento luminoso de Paulo com Jesus durou toda a sua vida: ele foi fiel até o fim. E nós, será que cultivamos a graça que já recebemos?

Experimente hoje meditar sobre a sua história com Jesus. Peça ao Senhor que lhe ilumine a mente, para que você possa crescer no conhecimento da sua amizade com Ele. Lembre-se de que Nossa Senhora está sempre a seu lado para ajudar.

Que Nossa Senhora e São Paulo intercedam por nós!

Referências

[1] Scott Hahn. Anjos e Santos: um Guia Bíblico para a Amizade com os que estão junto de Deus. São Paulo: Quadrante, 2018. p. 97.

[2] Papa Bento XVI. Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo: nas Origens da Igreja. São Paulo: Paulus, 2011. p. 134.

[3] Beato Columba Marmion Jesus Cristo. Vida da Alma. São Paulo: Cultor de Livros, 2021 p. 41-42.

[4] Ibid, p. 25.

[5] Ibid, p. 26.

[6] Papa Bento XVI. Os Apóstolos e os Primeiros Discípulos de Cristo: nas Origens da Igreja. São Paulo: Paulus, 2011. p. 136.

[7] Ibid, p. 136-137.

[8] Papa Leão XVI. Mensagem para o XXXIV Dia Mundial do Doente. 11 de janeiro de 2026.