Em toda Quaresma a Igreja chama, de modo especial, seus filhos à prática da oração, do jejum e da caridade. Seguindo os conselhos evangélicos, ela orienta os fiéis a se desapegarem dos bens terrenos para se aproximarem dos bens eternos. A Igreja deseja, com isso, preparar-nos para a Páscoa do Senhor. O tom roxo dos paramentos litúrgicos anuncia este tempo de recolhimento e penitência, enquanto os Evangelhos passam a narrar a última subida de Jesus à Cidade Santa, onde foi preso, condenado e crucificado.
A vida do Senhor é modelo para todos os cristãos. Seja qual for a circunstância, os ensinamentos e o exemplo de Jesus nos guiam em todos os momentos da vida. Assim, nossas práticas de devoção devem brotar de uma profunda vida interior: a exemplo do Senhor, que subia ao monte para rezar, devemos realizar o mesmo itinerário para nos unirmos a Ele em oração íntima, antes de realizar as obras que Ele nos pede.
É nesse espírito que a Via-Sacra se revela um perfeito exercício de meditação para o tempo da Quaresma. Ao meditá-la, caminhamos com o Senhor e vivemos com Ele Sua Paixão - a maior prova de amor pela humanidade. Contemplamos os últimos momentos do Homem-Deus que, ao realizar perfeitamente a vontade do Pai, operou a obra da nossa redenção.
Grandes frutos ao se meditar a Paixão de Nosso Senhor
Por esta santa meditação, conhecemos a malícia e a fealdade do pecado. A gravidade dos padecimentos de Nosso Senhor revela a justa consequência das culpas dos homens, assumidas totalmente por Ele. Ao reconciliar o homem com Deus, Jesus sofreu no nosso lugar, ofereceu a Si mesmo para satisfazer a justiça divina.
A Paixão de Nosso Senhor nos faz refletir sobre a própria vida e as consequências das nossas ações. Por outro lado, a ingratidão e a indiferença diante do sacrifício de Cristo nos tornam réus diante de Deus, que vê Sua misericórdia banalizada e desperdiçada. Embora a Redenção seja oferecida a todos, infelizmente poucos aproveitam as graças alcançadas por Ele na Cruz. Você, que lê estas linhas, certamente não deseja ser contado entre os ingratos.
Um aviso dessa natureza e importância não pode ser ignorado, ainda mais quando se sabe que esta pode ser a sua última Quaresma. Portanto, este é o período favorável, convidamos você a estar com o Senhor: meditando a Sua Paixão, tomando a cruz de cada dia e subindo com Ele o Calvário. É o momento de entregar-se completamente à vontade do Pai, que
“De tal modo amou o mundo que enviou o Seu Filho único para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).
Ao meditar as estações da Via-Sacra, contemplamos os últimos momentos da vida de Cristo. Ele caminha em direção ao Calvário para reparar os pecados que cometemos. Que esta santa devoção nos auxilie a vivenciar com maior profundidade este tempo de recolhimento, oração e penitência. Ao contemplar os sofrimentos de Nosso Senhor, arrepende-te de teus pecados.
Esta devoção é composta tradicionalmente por 14 estações, que narram o trajeto de Jesus desde a condenação por Pilatos até o Seu sepultamento. Contudo, a partir do pontificado de São João Paulo II, tornou-se comum o acréscimo de uma 15ª estação: a Ressurreição de Jesus. Embora não integre a estrutura clássica da Via-Crúcis — que foca na Paixão e Morte de Nosso Senhor —, ela é frequentemente incluída para enfatizar o triunfo e a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.
Meditar as estações da Via Sacra
Na primeira estação, Jesus é condenado à morte. Ele está diante de Pilatos. O Justo é julgado pelos pecadores. As autoridades religiosas já o haviam condenado à morte, mas para executar a sentença precisavam da ratificação do procurador romano. A cena ressalta a paciência de Nosso Senhor, que suporta as injúrias, os açoites, a zombaria e o escárnio dos judeus e dos pagãos em silêncio. Por outro lado, quantas vezes perdemos a paciência por ninharias? Quantas vezes condenamos o próximo em nosso tribunal interior para salvar nossa própria reputação?

Depois que Pilatos cedeu à pressão da multidão enfurecida, entregou Jesus nas mãos dos algozes para que a sentença de morte fosse cumprida. A segunda estação retrata Jesus carregando uma pesada cruz às costas para ser nela crucificado. A crucificação era o tipo de condenação mais humilhante e ultrajante daquela época, destinada para os piores criminosos. Mesmo inocente, Nosso Senhor não rejeitou a cruz; em Cristo, ela deixa de ser um sinal de condenação e se torna instrumento de esperança e salvação. E você? Como tem lidado com as contrariedades do seu dia a dia? Com revolta ou com a disposição de quem sabe que o sofrimento unido a Cristo salva? Esta cena, ainda hoje, ecoa as palavras do Senhor:
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24).
A caminho do Calvário, Jesus caiu três vezes, debilitado pelos açoites e pela cruz que Lhe abriu feridas profundas. Suas forças se esvaíam por causa da exaustão. A terceira, a sétima e a nona estações da Via-Crucis mostram Jesus sendo esmagado pelo peso da cruz. Contudo o que mais fere Nosso Senhor são os nossos pecados. Na última queda Jesus está desfalecido, Ele tomou para si todas as nossas dores e carregou todas as nossas enfermidades, mesmo sem forças e ferido levanta-Se para cumprir a missão de redimir a humanidade. Ele poderia, se quisesse, livrar-Se daquela situação a qualquer momento, mas não o fez, resistiu até o fim. Assim fez para nos dar exemplo, para que nós levantássemos após as quedas.
“Vinde a mim, diz o Senhor, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28).
Em meio à multidão hostil, naquela situação de angústia e dor, os olhares de Jesus e Maria se cruzam. Na quarta estação, Jesus é consolado por Sua Mãe Santíssima. Ela está triste e aflita seguindo Seu Filho até o Calvário, padecendo na alma o que Jesus sofreu no corpo. Esta cena, traz na memória as palavras de Simeão quando o menino Jesus foi apresentado no Templo:
“Este menino está destinado a ser ocasião de queda e elevação de muitos em Israel e sinal de contradição. Quanto a ti, uma espada atravessará a tua alma!” (Lc 2, 34-35).
O coração da Virgem Maria está transpassado de dor e angústia, se fosse a vontade de Deus ela também morreria junto com Seu Filho na Cruz para a salvação dos homens. Perfeita união de amor entre Deus e sua criatura, que revela a expressão mais pura, verdadeira e santa desse amor: a renúncia de si mesmo e o sacrifício.
Na quinta estação, o Cirineu ajuda Jesus a carregar a Cruz. Tal auxílio não foi motivado pela piedade; os algozes, ao vê-Lo caminhar com dificuldade, com os joelhos trêmulos e o corpo coberto de sangue, temeram que o Senhor falecesse no caminho. Por isso, obrigaram o Cirineu a levar o madeiro. Se ele conhecesse os desígnios de Deus, não teria sido necessária a ordem do soldado romano; ele próprio se teria oferecido para carregá-la. A atitude do Cirineu assemelha-se à conduta de muitos católicos, que cumprem os mandamentos de Deus por mera obrigação, esquecendo-se do amor às obras que realizam.
A atitude de Verônica, narrada na sexta estação, é oposta à do Cirineu. Ao vê-Lo tão exausto e fatigado, com o rosto ferido e ensanguentado pelos inúmeros golpes, movida por profunda compaixão, ela rompeu a multidão e a barreira dos soldados para enxugar a Sagrada Face do Salvador. Verônica consola o Senhor com um gesto simples, que revela a força do amor que não teme o julgamento do mundo. Em recompensa, Cristo imprimiu Suas feições naquele véu, ensinando-nos que, quando buscamos aliviar o sofrimento do próximo, é a Sua imagem que se grava em nossas almas.
Na oitava estação, o Senhor se comove com as piedosas mulheres que choram ao presenciar a Sua dor. Mesmo em meio a tamanha aflição, o Senhor as consola, dizendo:
“Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos!” (Lc 23, 27-28).
O Redentor nos faz compreender o rigor do castigo que merecem os nossos pecados; pois, se Ele — sendo o Filho de Deus e inocente — é assim tratado por se oferecer como reparação por nós, como não deveriam ser tratados os homens por seus próprios pecados?
Enfim, chega o Salvador ao alto do monte Calvário. A décima estação retrata Jesus sendo despojado de Suas vestes para ser pregado na Cruz. O Senhor padece mais esta humilhação: o descolar do tecido faz renovar as dores de Seu corpo dilacerado, reabrindo as chagas da flagelação. Enquanto os soldados dividem Suas vestes entre si e lançam sortes sobre a Sua túnica, Cristo permanece em silêncio, oferecendo Sua nudez em reparação pela imodéstia e pela soberba da humanidade, preparando-Se para o altar definitivo da entrega total.
Os algozes, tomados de fúria, transpassam as mãos e os pés do Salvador, pregando-os na Cruz. O som das marteladas ressoa por todo o monte e chega aos ouvidos de Maria; cada golpe foi como uma lança a transpassar o seu Imaculado Coração. Contempla o quanto custou a tua salvação: Jesus na Cruz é a prova suprema do amor de Deus. A cada instante, Ele padece dores mortais; imagina a agonia do Senhor durante as três horas em que permaneceu pregado no madeiro.
Já crucificado, na décima primeira estação, Jesus suplicou por aqueles que O condenaram à morte e O maltrataram:
“Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).
Ele orou também por nós, pecadores. Por isso, voltados para o Pai, digamos com confiança: “Ó Pai, ouvi a voz do Vosso Filho, que Vos suplica que nos perdoeis”.
Pouco antes de entregar o espírito ao Pai, Jesus recordou todos os sofrimentos de Sua vida: a pobreza, as penas e as injúrias suportadas, oferecendo tudo, mais uma vez, ao Pai Eterno. Tendo realizado tudo o que fora predito pelos profetas, exclamou: “Tudo está consumado” (Jo 19, 30). O sacrifício que Deus esperava para redimir o mundo fora realizado, e a justiça divina, foi plenamente satisfeita. A décima segunda estação, retrata o último suspiro do Senhor na Cruz que clama com voz forte:
“Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46).
Descido da Cruz com toda a reverência por José de Arimateia e Nicodemos, o Corpo de Jesus foi depositado nos braços de Maria Santíssima. Que dor imensurável! Ela pôde contemplar toda a crueldade infligida a Seu Filho: Seu Corpo estava coberto por vergões e chagas, as mãos e os pés transpassados pelos cravos, e o lado aberto pela lança. Na décima terceira estação, a Virgem Maria recebe em seu seio Aquele que um dia acalentara no presépio. A Virgem Dolorosa une seu sacrifício ao de Cristo, ensinando-nos que não há ferida humana que não encontre consolo no seu coração de Mãe.
Na décima quarta estação, o Corpo do Redentor foi envolto em um lençol de linho com aromas, conforme o costume de sepultar entre os judeus. Próximo ao local onde Jesus fora crucificado, havia um jardim e, nele, um sepulcro novo, onde O depositaram com profunda reverência, fechando a entrada com uma grande pedra. Maria Santíssima permanecia em silêncio, guardando em seu coração a dor da ausência de Seu Filho.
Contudo, a história não termina no silêncio do túmulo. Na décima quinta estação, celebramos a aurora da esperança: no terceiro dia, a pedra foi removida e a morte, vencida. Jesus ressuscitou, transformando o luto em alegria e garantindo que o sofrimento da cruz foi o caminho para a glória eterna. A Ressurreição é a certeza de que a luz sempre dissipa as trevas do pecado e da morte.
Ao percorrer estas estações, somos convidados, nesta Quaresma, a meditar sobre o amor que Cristo manifestou por nós. Que esta prática de piedade, tão importante na Igreja, não se encerre no folheto de oração, mas se prolongue em nossa vida cotidiana através de uma conversão sincera. Tenhamos a certeza de que a Cruz é o único caminho que nos conduz ao Céu, e que viver bem esta Quaresma é o segredo para celebrarmos, com o coração renovado, a alegria da Páscoa.
Você pode rezar a Via-Sacra conosco todas as sextas-feiras em nosso canal do Youtube Padre Alex Nogueira.






