Não faz tanto tempo assim - há menos de um século - o mundo certamente era mais católico. Era comum as famílias se reunirem: os adultos conversavam depois de um dia inteiro de trabalho, as crianças brincavam e, no pôr do sol, cessavam as conversas e as brincadeiras para a récita do Angelus e do Santo Rosário. Aos domingos, as mesmas pessoas voltavam a se encontrar na Igreja para a Santa Missa Dominical; o padre ensinava o catecismo e administrava os sacramentos às crianças, confessava os adultos e a todos orientava para uma autêntica vida cristã.
A vida seguia seu curso, a fé era cultivada e, no coração das pessoas, parecia sempre haver uma sincera piedade: a preocupação de não ofender a Deus e de fazer a Sua vontade. Os Dez Mandamentos e os Mandamentos da Igreja eram lembrados e praticados. Infelizmente, notamos facilmente que este não é mais o contexto em que as famílias vivem, inclusive aquelas consideradas “católicas”.
As novas correntes de pensamento e os avanços tecnológicos transformaram profundamente a sociedade, introduzindo em todos os ambientes — família, escola, trabalho — um “espírito” de relativismo, indiferentismo e ceticismo com relação às coisas mais sagradas, guardadas pela Igreja por séculos. Não foi necessário muito tempo para que essa “avalanche” de novidades substituísse as antigas práticas de devoção.
Esse “espírito” manifesta-se até mesmo dentro da própria Igreja. Em qualquer paróquia, não é difícil encontrar pessoas que pensam e praticam a fé de forma bem diferente do ideal ensinado pela Igreja. Com frequência ouvimos: “basta crer em Deus”, “o importante é aceitar Jesus” ou “Jesus não fundou uma Igreja” — jargões que acabam por negar a necessidade dos sacramentos, da graça e da Santa Missa para a salvação da alma. Como diz o adágio: “Esta é a água na qual nadam os peixes”. Portanto, para relembrar os católicos e todos os homens de boa vontade, à luz da verdade acerca da Igreja Católica, este artigo propõe responder à pergunta: Por que a Igreja Católica é a única Igreja fundada por Cristo?
A missão da Santa Igreja Católica
Primeiro, é evidente que Cristo fundou uma Igreja para guardar, conservar e ensinar Sua doutrina por meio de uma hierarquia ao longo dos tempos, sob a autoridade de um chefe único e infalível. Foi precisamente assim que ela se manteve una e íntegra mesmo após dois milênios. Tanto pela razão quanto pela história, como veremos, é possível verificar que Jesus fundou uma sociedade visível: a Igreja.
A Igreja começou pequena, como um “grão de mostarda” (cf. Mt 13, 31-32) — composta por apenas alguns apóstolos e discípulos —, mas estava destinada a tornar-se uma grande árvore. Tal promessa cumpriu-se após a Ressurreição do Senhor, quando Ele enviou Seus apóstolos em missão, garantindo-lhes a assistência divina:
“Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (cf. Mt 28, 18-20).
Vê-se claramente que a Igreja fundada por Cristo constitui uma sociedade composta por dois grupos distintos: um, que ensina e governa sob a autoridade máxima; e outro, que é ensinado e governado. Nesta passagem, Jesus designou os Apóstolos para uma tríplice missão no mundo: ensinar Sua doutrina; santificar através do Batismo; e governar, fazendo discípulos entre as nações. Tal estrutura só é possível em uma instituição que seja, por natureza, visível e hierárquica.
Após Pentecostes, vê-se a atuação da Igreja como sociedade perfeita, na qual se entra pela “porta” do Batismo. O livro dos Atos dos Apóstolos registra a organização de comunidades — Igrejas particulares — administradas pelos próprios Apóstolos ou entregues à direção de bispos e presbíteros:
“Os apóstolos designaram presbíteros para cada Igreja e, com orações e jejuns, os confiavam ao Senhor” (At 14, 23).
Ora, só quem possui autoridade pode designar. Aqui, os Apóstolos exercem seu poder para organizar a Igreja que, por obra do Espírito Santo, cresceu apesar das perseguições.
O Primado de São Pedro e o Papa
Foi Jesus quem instituiu o Papado. Ele quis pôr à frente de Sua Igreja um chefe único e infalível, revestindo São Pedro — e, consequentemente, os seus sucessores — com a primazia. No Evangelho de São Mateus, lemos que, após Pedro confessar a divindade de Jesus, o Senhor lhe diz:
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (cf. Mt 16, 18-19).
As chaves representam o poder; logo, são o sinal da primazia de Pedro em relação aos demais apóstolos.
E para que não houvesse dúvidas acerca da escolha do Salvador e da missão confiada a Pedro, após a Sua Ressurreição, Jesus dirige-se a ele novamente e diz, por duas vezes: “Apascenta os meus cordeiros” e, na terceira: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21, 15-17). São Pedro é, assim, confirmado no encargo de cuidar de todo o rebanho de Cristo: “cordeiros e ovelhas”, isto é, bispos, padres, religiosos e leigos. Portanto, ele é constituído por Nosso Senhor como o Pastor Supremo de toda a Igreja Universal.

É São Pedro quem propõe a eleição de um novo membro para substituir Judas Iscariotes no Colégio Apostólico (cf. At 1, 15-22). Ele prega o Evangelho antes de todos no dia de Pentecostes (cf. At 2, 14) e, embora São Tiago fosse o bispo de Jerusalém, é São Pedro quem preside o Concílio realizado naquela cidade (cf. At 15). O Apóstolo dos gentios, São Paulo, viaja a Jerusalém propositalmente para conhecê-lo e afirma ser ele uma das colunas da Igreja (cf. Gl 1, 18; 2, 8-9). Não resta dúvida, portanto, na Tradição Apostólica acerca da primazia de São Pedro.
Ao estabelecer a primazia, Nosso Senhor queria assegurar a unidade e a estabilidade da Sua Igreja. Para este fim, tal primazia não poderia desaparecer com a morte do Apóstolo, mas deveria ser transmitida aos seus sucessores, como ocorre na Igreja Católica mediante a eleição de um Papa. Tendo Pedro estabelecido em Roma a sua sede episcopal, onde também foi martirizado, é o Bispo desta cidade quem herda o Ministério Petrino. Escritores eclesiásticos como Santo Inácio (107 d.C.), Santo Ireneu (202 d.C.) e Tertuliano (245 d.C.) declararam que o Bispo de Roma possui a supremacia por ser o sucessor de São Pedro. A ele sucederam Lino, Cleto, Clemente e uma linhagem ininterrupta até o atual Pontífice, o Papa Leão XIV.
A única Igreja de Cristo
Tão certo é o fato de que Jesus fundou uma única Igreja, quanto o de não ter fundado mais de uma. Ao revelar Sua doutrina, Jesus ordenou que o Evangelho fosse anunciado a toda criatura. Para esse fim, enviou os Apóstolos, fazendo deles Seus substitutos com a missão de completar Sua obra: ensinar a Verdade em todo lugar, exatamente como Ele a ensinou. Esta é a missão da Igreja. Por meio dela recebemos a doutrina de Jesus; por isso, ela permanecerá até o fim dos séculos. Se fossem várias as igrejas de Jesus, não teríamos recebido Sua doutrina íntegra após dois milênios.
A Igreja, guiada e inspirada pelo Espírito Santo no exercício de sua autoridade, entregou-nos os textos sagrados que compõem as Escrituras. É a ela, portanto, que devemos recorrer em nossas necessidades espirituais, pois dela recebemos as graças que emanam de Cristo, sua Cabeça. Essa autoridade é tamanha que o próprio Senhor ordena que, persistindo o erro de um irmão, este seja levado à Igreja para correção e conversão (cf. Mt 18, 15-17). São Paulo a descreve como a “Noiva” de Cristo, santa e imaculada (cf. Ef 5, 25-32); por essa união indissolúvel com o Salvador, compreendemos que fora dela não há salvação.
Jesus fundou a Igreja à custa da Sua própria vida; ela é a porta do Céu pela qual todos devem entrar. Para que não houvesse dúvida ao reconhecê-la em meio às demais religiões, Ele deixou nela sinais de sua origem divina. São as chamadas Notas da Igreja, que a caracterizam e a distinguem de todas as demais: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.
As notas da Igreja
1- Unidade
O desejo de Nosso Senhor é que haja “um só rebanho e um só pastor” (cf. Jo 10, 16). São Paulo também exorta os cristãos a terem a mesma alma e o mesmo sentimento (cf. Fl 2, 2), pois “há um só Senhor, uma só fé e um só batismo” (cf. Ef 4, 5). Portanto, não pode haver senão uma só Igreja verdadeira, que possua a unidade de governo sob um Pastor Supremo e a unidade de fé, para que todos os fiéis creiam na mesma doutrina de Cristo. Desse modo, os filhos da Igreja de qualquer tempo e lugar permanecem unidos no mesmo culto, na mesma lei e na participação dos mesmos sacramentos, sob a autoridade do mesmo chefe visível.
2- Santidade
A missão da Igreja é santificar e levar os homens à salvação. Como Jesus, Sua Cabeça invisível, é Santo, Sua santidade transborda para os membros do Corpo, o que atestamos pelo testemunho heroico de inúmeros santos que seguiram o conselho divino: “Sede, vós, perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito” (cf. Mt 5, 48).
No entanto, a santidade da Igreja transcende a de seus membros: ela é santa porque somente a ela foram confiados os meios de santificação. Essa nota se manifesta em sua Doutrina, nos Sacramentos e na Sagrada Liturgia; pois, em sentido estrito, a santidade plena provém dos tesouros que Cristo depositou em Sua única Igreja.
3- Catolicidade
A ordem de Jesus é clara: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (cf. Mc 16, 15). Ele não apenas ordena a difusão da fé por toda a terra, mas profetiza que assim ocorrerá. Antes da Ascensão, afirma aos Apóstolos:
“Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (cf. At 1, 8).
A universalidade da Igreja abrange os fiéis de todos os tempos, lugares, idades e condições, pois todos os homens são chamados a fazer parte d’Ela. Contudo, a catolicidade exige unidade; sem esta, a Igreja seria apenas uma coleção de sociedades variadas, e não o único Corpo de Cristo.
4- Apostolicidade
A verdadeira Igreja é também Apostólica, o que se refere à sucessão ininterrupta do Papa e dos bispos atuais até São Pedro e os demais Apóstolos; bem como ao fato da Igreja crer e ensinar tudo o que creram e ensinaram os Doze. Mostra, assim, a legítima descendência de Cristo por meio deles.
A apostolicidade verifica-se tanto no governo quanto na doutrina. Ao dizer a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (cf. Mt 16, 18), Jesus estabelece o Papado para o governo. E, dirigindo-se aos Apóstolos, diz: “Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (cf. Mt 28, 20). Aqui, o Salvador ordena a unidade na fé e promete Sua divina assistência.
A singularidade da Igreja Católica
A Igreja Católica Apostólica Romana é a única que possui todas essas notas. Apenas ela conserva a unidade de governo, sob seu Pastor Supremo, e a unidade na doutrina. Essa coesão na fé resulta da autoridade de governo, pois os católicos devem obedecer ao magistério infalível que os instrui. Além disso, a Igreja é santa na doutrina transmitida e no testemunho heroico de seus santos; é católica por sua universalidade; e apostólica, tanto pela sucessão ininterrupta de seus pastores quanto pela integridade do que ensina.
Contudo, isso não quer dizer que não haja no seio da Igreja o joio misturado com o trigo (cf. Mt 13, 24-30). O Senhor também comparou a sua Igreja à rede que apanha peixes maus e bons (cf. Mt 13, 47-50). Não é difícil reconhecer maus católicos e mesmo entre as autoridades eclesiásticas há quem escandalize os fiéis. Apesar de lastimável, isso em nada diminui o brilho e a excelência da Igreja, pois as deficiências e os desvios são fraquezas dos indivíduos e não falhas na sua doutrina. O próprio Senhor nos advertiu que “é inevitável que ocorram escândalos” (cf. Lc 17, 1). E São Paulo diz: “do vosso próprio meio aparecerão homens com doutrinas perversas, que arrastarão discípulos atrás de si” (cf. At 20, 30). “Mas ai daquele que os provoca!” (cf. Lc 17, 1), diz o Senhor.
Por outro lado, a melhor forma de convencer alguém dessa verdade não é dizer a ela: “A sua religião é falsa”. Isso provavelmente fechará qualquer possibilidade de conversão. O melhor caminho é sempre a caridade cristã. O amor de Cristo é o modelo para o amor humano: um amor que purifica, cuida e sustenta. Devemos conhecer bem a nossa religião, para explicar as razões de nossa fé a quem nos pedir (cf. 1 Pd 3, 15), mas de forma sempre amável e coerente, com o testemunho autêntico de vida. Estamos certos de que a salvação está na verdade, contudo, nem todos a seguem. Aos que por culpa própria rejeitam a Igreja Católica, rejeitam o próprio Cristo:
“Quem vos ouve a Mim ouve, quem vos despreza a Mim despreza” (cf. Lc 10, 16).
Jesus instituiu a Igreja para nos aplicar as graças que Ele nos adquiriu por Sua Paixão e Morte na Cruz. Podia tê-las aplicado a cada um diretamente e de forma invisível; no entanto, foi da vontade divina canalizar Suas graças através de símbolos sensíveis. Ele instituiu os sacramentos e confiou à Igreja a sua administração, para que pudéssemos saber quando, como e que espécie de graça recebemos.
Cristo é a Cabeça, e a Igreja, o Seu Corpo Místico. Ele é a fonte de vida que coordena o crescimento de todo o corpo para que seja saudável e santo: embora composto por muitos membros com funções diferentes, todos formam um só corpo. Jesus amou a humanidade assumindo um corpo humano, Ele continua a amar a humanidade através do Seu Corpo Místico, que é a Igreja.
Ela promove a autoridade de Cristo-Rei e, por consequência, o Seu reinado no mundo, para que Ele seja conhecido, amado e servido por todos os povos e nações. A Igreja não está apenas “próxima” de Jesus: ela está em Cristo. É o “Cristo continuado” que nos distribui os dons celestes para a nossa salvação e para a glória de Deus. Estar na Igreja é participar da própria vida de Jesus ressuscitado, sendo alimentado por Ele e agindo no mundo como Sua presença visível. Amemos, pois, a Igreja como Cristo a amou e se entregou por ela (cf. Ef 5, 25). E rezemos por todos aqueles que a rejeitam, para que vejam a luz da verdade e retornem à unidade do rebanho de Cristo.
“A Igreja é o prolongamento de Cristo na terra; por ela, recebemos os bens divinos que Ele trouxe ao homem.”
Referências
Leo J. Trese. A Fé Explicada. São Paulo: Quadrante, 1995.
Boulenger. Doutrina Católica - Manual de Instrução Religiosa: O Dogma.
Catecismo Maior de São Pio X. Niterói, RJ: Permanência, 2010.
Catecismo da Igreja Católica.






