A Quaresma não é apenas um tempo litúrgico, mas a lembrança da urgência de buscar sermos como Deus nos quer: santos. Descubra como o jejum, a esmola e a oração formam o roteiro milenar para romper as resistências do coração e reconquistar a liberdade dos filhos de Deus.
“Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: não fecheis os corações como em Meriba” (Sl 94, 8).
Com esta súplica do salmista, a Igreja inaugura o tempo da Quaresma, estabelecendo uma condição fundamental para a nossa vida espiritual: a urgência da nossa adesão sincera, total e verdadeira ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. A liturgia da quarta-feira de cinzas nos convoca a uma revisão de vida que não admite mais adiamentos:
“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2Cor 6,2)
Na Sagrada Escritura, Meriba é um memorial de um povo que, diante das dificuldades do êxodo do Egito e da longa caminhada pelo deserto, permitiu que a alma se fechasse à condução de Deus. Essa atitude os levou a ruína e pereceram todos antes mesmo que entrassem na terra prometida (cf. Nm 14, 26-35).
Isso nos faz meditar acerca das oportunidades de conversão que Deus, em sua infinita misericórdia, nos concede. Todos os dias da nossa vida Deus nos pede a conversão do nosso coração, a fim de sermos mais pertencentes a Ele. Nós, contudo, embora possamos fazer muitas coisas, nunca saberemos a hora da nossa morte. Pode ser hoje, amanhã, ou daqui há muitos anos. A pergunta que fica é: e se nós tivéssemos somente hoje para nos convertemos?
Para onde estamos indo?
Se outrora era o povo escolhido quem estava no deserto, hoje somos nós quem estamos neste vale de lágrimas, como diz a oração da Salve-Rainha. Basta olharmos ao nosso redor e veremos o sofrimento, o pecado, a injustiça que nos separam de Deus e dos irmãos. Caminhamos rumo à Terra Prometida por Nosso Senhor, que é o céu. Mas não é possível entrar no Reino com resistência em abandonar os vícios de estimação e na recusa em abraçar a disciplina necessária para o caminho de uma vida em santidade.
A imposição das cinzas é a declaração pública de uma decisão interior. Ao aceitar esse sinal sobre a fronte, nós reconhecemos a nossa condição de criatura necessitada de seu criador, afinal, não fomos criados para ficarmos longe d’Ele, mas perto, pois, como diz o Apóstolo:
“nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos. No seu amor nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua livre vontade” (Ef 1, 4-5).
Mas afinal, que significa ser santo? A santidade não é um conceito abstrato ou um título reservado a poucos eleitos, mas uma realidade dinâmica que começa no nosso Batismo. Ao sermos justificados em Cristo, tornamo-nos verdadeiramente participantes da natureza divina e, por isso, recebemos o dom da santidade como uma semente. Ser santo é, portanto, o projeto de conservar e aperfeiçoar essa vida nova recebida, permitindo que ela cresça e amadureça através do auxílio constante da graça de Deus em nosso cotidiano.

Esse projeto de vida tem um motor central: a caridade. É preciso aprender a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor a Ele. Trata-se de uma missão concreta que se realiza na escuta da Palavra, na participação frequente nos sacramentos — especialmente na Eucaristia — e em uma vida de oração constante. Ela se manifesta na abnegação de si mesmo e no serviço efetivo aos irmãos, pois é a caridade vivida plenamente que dirige e dá sentido a todos os outros meios de santificação, tornando-nos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo.
Tudo isso não se compreende fora da união com Cristo; é preciso associar a própria existência aos mistérios da Sua vida, morte e ressurreição. Ser santo é permitir que Jesus ame em nós e através de nós, moldando nossa estatura humana conforme a Sua, de modo que a totalidade da nossa vida — com nossas escolhas, trabalhos e relacionamentos — torne-se uma mensagem única que o Espírito Santo comunica ao mundo. Identificar essa mensagem exige uma disposição constante de escuta e discernimento na oração, buscando compreender o que o Senhor espera de nós em cada momento [1] . Esse percurso de transformação exige que permaneçamos abertos à ação purificadora de Deus, que nos renova mesmo em meio aos nossos limites.
Neste tempo quaresmal, em que o primeiro passo da nossa santidade - ou seja, a conversão - é tão acentuado, a Igreja nos entrega um “programa” seguro e milenar, capaz de romper com as resistências do coração: as três obras de piedade do jejum, da oração e da esmola.
Devolver amor, com amor: a mortificação corporal
Dentre as três obras de conversão acentuadas na quaresma, está a mortificação corporal, tradicionalmente associada ao jejum, em primeiro lugar. Para compreendermos sua profundidade, precisamos olhar para a Cruz: a mortificação é, antes de tudo, uma resposta ao amor infinito de Deus. Constatemos: nos casais apaixonados, é comum querer devolver amor com amor. Quanto mais se demonstra amor, mais quer-se devolver este amor.
Ao olhar para a cruz, é próprio de quem está “apaixonado” por Cristo desejar devolver amor por amor, não apenas com palavras, mas com obras de sacrifício que manifestem gratidão. Por isso, o cristão busca assemelhar-se ao Amado, seguindo Seus passos e participando, de modo modesto e voluntário, dos sofrimentos que Ele suportou por nossa salvação.

Em um mundo que exalta de forma absurda os nossos sentidos, a mortificação serve como um exercício ascético insubstituível para o discernimento dos nossos apetites e a reordenação dos nossos desejos. Ao envolvermos o corpo na privação, tornamos evidente aquilo de que temos verdadeira “fome” e o que realmente consideramos essencial para o nosso sustento [2]. Esse exercício purifica o desejo e dilata a alma, transformando a inclinação carnal em fome de justiça e em uma prontidão maior para acolher a Palavra de Deus e agir no bem [3].
É fundamental, contudo, compreender que a mortificação cristã é um meio, e nunca um fim em si mesma. Ela é um caminho que deve conduzir à alegria da ressurreição, e não a uma tristeza ou ao orgulho espiritual. A razão decisiva de qualquer sacrifício deve ser o amor que busca o perdão e a companhia de Cristo; por isso, o sacrifício por amor sempre culmina em um amor pleno transbordante de felicidade e glória.
Para que essa prática seja autêntica e agradável a Deus, ela deve ser realizada com prudência, sem jamais colocar em risco a saúde ou a vida. A Igreja sempre reprovou exageros que ultrapassam os limites do bom senso; o objetivo é disciplinar o corpo para o serviço do espírito, e não destruí-lo. Se você deseja conhecer mais sobre o jejum, clique aqui e leia também o artigo “Aprenda a jejuar como um católico”.
O jejum deve transbordar para a caridade e para o controle da nossa linguagem, evitando que o coração se envaideça. Uma forma de mortificação muito necessária nos dias de hoje é a abstinência de palavras que ferem o próximo, como juízos temerários e calúnias [4]. Ao desarmarmos a linguagem e cultivarmos a gentileza nos ambientes de trabalho, na família e nas redes sociais, o nosso sacrifício se torna uma oferta viva, substituindo o ódio por palavras de esperança e paz.
O dom de si mesmo: a esmola
Voltemo-nos agora para a esmola. Muito mais do que um simples gesto de filantropia, a esmola dada aos pobres é um testemunho de caridade fraterna e uma prática de justiça que agrada a Deus [5]. Seu fundamento reside no reconhecimento de que somos administradores, e não donos absolutos, dos bens que o Criador nos confiou. Jesus observa com atenção a intenção do coração por trás do gesto, como demonstrou ao exaltar o olhar sobre a pobre viúva que deixou no templo sua pequena oferta ( cf. Lc 21, 1-4): o mérito cristão não reside na grandeza do montante, mas na vontade sincera e sacrificada com que se entrega o que se pode.
Para que a esmola conserve seu valor espiritual, Jesus orienta que ela seja vivida na mais profunda discrição, combatendo a tentação de transformar o sacrifício em espetáculo ou busca por prestígio social. Ao seguirmos o preceito evangélico de que a “mão esquerda não saiba o que faz a direita” ( cf. Mt 6,3), exercitamos a humildade e impomos um freio eficaz à nossa ganância. A prática frequente da esmola educa o coração para o desapego, impedindo que coloquemos nossa segurança no acúmulo de tesouros terrenos e abrindo espaço para a verdadeira liberdade dos filhos de Deus, que confiam na providência do Pai.
É necessário, porém, vigiar para que a esmola não se torne um mero “cumprir” formalista ou uma beneficência fria, rebaixada a uma atitude burocrática e sem alma. O cristão é chamado a esbanjar carinho entre os que o rodeiam, pois o amor que nasce do coração de Cristo não separa o carinho humano da caridade sobrenatural. Tratar o necessitado apenas com uma caridade institucional, sem a alma do que descobre no outro a imagem de Nosso Senhor, é uma aberração que esvazia o sentido do sacrifício [6]. A esmola deve ser, portanto, um encontro de corações, uma entrega que envolve a totalidade da pessoa.
No Sermão da Montanha, somos exortados a ser misericordiosos como o Pai é misericordioso. Ao praticarmos a esmola sem cálculos e sem esperar nada em troca, permitimos que a caridade informe todas as nossas ações, preparando-nos verdadeiramente para a alegria da ressurreição.
Falar ao Coração do Senhor
Se a mortificação disciplina o corpo e a esmola abre as mãos, a oração é o que verdadeiramente nos faz viver na companhia de Jesus. Ela não pode ser restrita apenas à Quaresma, mas deve permear todos os tempos litúrgicos e cada momento da nossa jornada, pois é a necessidade vital da alma que deseja ser transformada. Rezar é, essencialmente, aprender a acolher o dom gratuito do amor de Deus, deixando-se acompanhar por Alguém que nunca impõe Suas dádivas, mas aguarda a nossa liberdade para nos fazer felizes [7].
Mas não basta apenas falar com Deus. Na cena do Calvário, os dois ladrões dirigiram a Palavra ao Redentor. A diferença entre os dois reside na humildade. Enquanto um dos ladrões exigia seus direitos e censurava a passividade de Cristo, Dimas, o “Bom Ladrão”, reconhecia que não merecia nada e apenas pediu para ser lembrado [8]. Essa atitude de saber-se necessitado é o que mais nos dispõe a receber o amor de Deus e nos permite ver a vida através dos olhos de Cristo, corrigindo a nossa visão frequentemente confusa. A oração é, portanto, o canal pelo qual transborda a vida divina em nós, convertendo o sofrimento e os erros em um caminho de plena dignidade.
Rezar é “abrir o jogo” para Deus, dando-Lhe o espaço necessário para que Ele possa agir, entrar e vencer em nossas batalhas interiores. Quando o Senhor nos pede algo na oração, Ele está, na realidade, nos oferecendo um dom; não somos nós que Lhe fazemos um favor, mas Ele quem ilumina nossa existência e a enche de sentido. Por isso, a oração deve ser rica de memória, alimentando-se dos prodígios que Deus semeia diariamente em nossa história e que muitas vezes deixamos passar sem o devido assombro e gratidão.
Existem infinitas maneiras de orar e o Senhor deseja ouvir cada um de seus filhos de forma única. Todos nós precisamos nos recolher todos os dias, e se possível, várias vezes ao dia, para elevar o nosso pensamento a Deus e dirigir-lhe uma prece confiante. Se muitas vezes não paramos para rezar, é porque não paramos para perceber a necessidade que a nossa alma tem de Deus. É como estar com muita sede, mas por causa das diversas ocupações, deixamos de tomar a água tão necessária para o corpo. Portanto, também na vida espiritual, não podemos deixar de receber a água da graça através da oração, mesmo que tenhamos muitos deveres a cumprir. Para um católico, a coisa mais importante sempre será permanecer unido a Deus.
No início desta Quaresma, que a nossa oração tenha a intensidade e a confiança daquela travada no alto da Cruz. Que a Virgem Maria, testemunha silenciosa de todos os nossos diálogos com seu Filho, nos ensine a permanecer abertos à ação sobrenatural que purifica e ilumina, para que possamos ouvir, ao fim de cada dia, a promessa de que o paraíso começa agora, no exato momento em que nos decidimos a ser almas de oração.
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Referências
[1] Papa Francisco. Gaudete et exultate, nº 23.
[2] Papa Leão XIV. mensagem para a quaresma de 2026.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] CIC 2462.
[6] São Josémaria Escrivá. Amigos de Deus, nº 229.
[7] Diego Zalbidea. Conhecê-lo e Conhecer-se. Roubar o coração de Cristo. p. 4.
[8] Ibid. p. 5.






