Devoção Popular
Espiritualidade

Os santos que sofriam durante o carnaval

Jesus alertou alguns santos sobre as graves ofensas que Ele recebe no tempo nefasto do carnaval. Assim, Nosso Senhor pediu orações, sacrifícios e reparação pelos pecados cometidos.

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Não deve haver período em que as pessoas mais ofendam a Deus do que no Carnaval. De origem pagã e celebrado desde a Antiguidade, ele caracteriza-se pelos excessos e pelos mais diversos tipos de pecados, cometidos sem qualquer remorso. No Brasil, infelizmente, essa festa amplamente promovida já se tornou parte da cultura nacional, sendo reconhecida no exterior não pelas virtudes de seus participantes, mas pela depravação moral promovida nesses dias.

O carnaval foi-se tornando, ao longo dos anos, mais que um feriado; para muitos, é um símbolo de nacionalidade. O Brasil é conhecido como a terra do carnaval, e este título deve ser um sinal de desonra e vergonha para todos nós. Para aprofundar esse conteúdo, clique aqui e acesse o artigo em que falamos sobre o carnaval e seus perigos.

Para os católicos, o carnaval deve ser um tempo de intenso combate espiritual, de uma “Cruzada pela Pureza”. É nesse período que se intensificam as depravações morais, uma onda de imoralidade que inunda o mundo inteiro e afeta a todos. Por isso, a Santa Igreja proclama esse perigo contra a fé cristã e a salvação das almas. No Carnaval, o incentivo à impureza, multiplica-se e envenena até mesmo as crianças. Por outro lado, a atitude indulgente da maior parte das pessoas se dá pela cegueira diante dos mais graves distúrbios morais, permitindo que se relaxem ainda mais as rédeas que mantêm o mal sob controle.

Contudo, nós que fomos purificados pelas águas do Batismo e Confirmados na missão de seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, custe o que custar, não podemos relaxar. A Igreja nos lembra que a vida do homem na terra permanece sempre uma batalha do bem contra o mal, da luz contra as trevas, da virtude contra o vício e da verdade contra o erro.

Ela nos adverte para as consequências dos nossos atos: temos uma alma para salvar e devemos também ajudar os nossos irmãos. Hoje, o perigo é ainda maior, pois os meios de excitar as paixões, antes restritos, multiplicaram-se enormemente. Os meios de comunicação transmitem para todos os lugares o que antes era discreto, tornando tais coisas disponíveis a todos - idosos e jovens, homens e mulheres.

No ano de 1917, em Fátima a Virgem Santíssima apareceu e mostrou o inferno a três crianças: Lúcia, Jacinta e Francisco. Lúcia, ao relatar o episódio, disse que, se não fosse a Virgem Maria, elas teriam morrido de susto. Viam as almas sendo precipitadas no abismo e padecendo muitos tormentos. Foi-lhe revelado que muitas almas iam para o inferno porque não havia quem rezasse e se sacrificasse por elas. A Virgem Santíssima ainda lhes disse que os pecados que mais esfriam a caridade e afastam as pessoas de Deus são os pecados da carne, ou seja, as imoralidades e as desordens sexuais que atentam contra a pureza, o sexto mandamento da Lei Divina: “Não pecar contra a castidade”.

Nesta aparição a Virgem Maria chama a nossa atenção, para que rezemos pela conversão dos pecadores. Muitos podem objetar dizendo que não cometem esses pecados, mas, por amor à Virgem Santíssima, tão unida à vontade do Altíssimo, não podemos negligenciar esse pedido que a Mãe de Deus fez a nós pessoalmente.

Não podemos fugir dessa guerra. A pureza das almas que vivem em estado de graça não será preservada sem luta, diz o papa Pio XII. Embora o pecado original tenha sido extirpado de nossas almas pela ação purificadora da graça santificante através do Batismo que nos reconciliou com Deus, permanece a triste herança de Adão: um desequilíbrio interior, um conflito, contra o qual o grande Apóstolo São Paulo lutava (cf. 2 Cor 12, 7). Esta é a guerra do espírito contra a carne, tão atestada na Revelação.  

Muitos aceitaram com coragem esta missão. Estavam dispostos a rezar, fazer sacrifícios e reparar as ofensas pelos pecadores, unindo-se aos sofrimentos de Nosso Senhor. Que os exemplos de Santa Margarida Maria Alacoque, Santa Maria Madalena de Pazzi e Santa Faustina Kowalska nos ajudem a não temer a luta pela pureza.

Santa Margarida Maria Alacoque

No escrito que conta a história de sua vida, Santa Margarida narra que, numa noite de Carnaval, após voltar das festividades, Jesus lhe apareceu todo desfigurado pelos açoites da flagelação, com o corpo ensanguentado, o semblante pálido e abatido, os lábios ressequidos pela sede e os divinos olhos cheios de lágrimas. Fixou nela Seu olhar e disse:

“Filha cruel, vê a que estado me reduziram as tuas vaidades! Tu estás perdendo um tempo infinitamente precioso de que deverás prestar rigorosas contas; atraiçoas-me e me persegues, depois de eu te haver dado tantas provas do meu amor”. [1]

Outra vez, em tempo de Carnaval, Jesus lhe apareceu todo flagelado, como quando Pilatos disse “Ecce Homo” (“Eis o homem” - cf. Jo 19, 5) à multidão enfurecida que exigia a Sua morte. Jesus carregava a cruz, todo coberto de chagas e brotando, de todo o Seu corpo, Seu Sangue adorável. Com uma voz triste, dizia:

“Não haverá ninguém que tenha piedade de Mim e queira compadecer-se e tomar parte em minha dor vendo o lastimoso estado em que Me põem os pecadores, sobretudo neste tempo de Carnaval?” [2]

Ela prostrou-se aos seus sagrados pés e se ofereceu a Ele com lágrimas e suspiros. Tomando sobre os seus ombros aquela pesada cruz, sentiu-se esmagada pelo seu peso; assim, pôde compreender melhor a gravidade e a malícia do pecado, a qual passou a perceber vivamente no coração:

“Maldito pecado – disse – que detestável és, pela injúria que fazes a meu soberano Bem!” [3]

Santa Margarida Maria tornou-se muito penitente e sempre meditava sobre a ingratidão do passado, buscando expiar as graves ofensas cometidas contra o Sagrado Coração de Jesus. É no carnaval que Jesus é mais abandonado pelos homens. Para reparar as ofensas dos pecadores e alcançar a misericórdia divina, ela fazia muitas penitências:

“Durante os três dias de Carnaval, (…) para reparar os ultrajes que fazem sofrer os pecadores à Sua Divina Majestade; e enquanto me era possível, os passava jejuando a pão e água, dando aos pobres o que recebia para meu sustento.” [4]  

Santa Maria Madalena de Pazzi

Os relatos sobre o carnaval de Santa Maria Madalena de Pazzi são marcados por uma dor espiritual extrema e pelo desejo de reparação. Em um de seus relatos mais conhecidos, ela descrevia que, nesses dias, o demônio parecia exercer um domínio quase absoluto sobre muitas almas. Ela via o mundo como que “coberto por uma nuvem negra de pecados”, especialmente os pecados de sensualidade e orgulho.

Ela sentia em seu próprio corpo as dores da Paixão de Cristo durante a folia. Em seus êxtases, ela clamava a Deus: “Ó Amor! Ó Amor! Não mais pecados, não mais ofensas!”. Relatava a tristeza de Jesus ao ver as almas, pelas quais Ele morreu, entregando-se voluntariamente a vícios que as afastam da salvação. [5]

Santa Faustina Kowalska

Santa Faustina também se uniu às dores de Nosso Senhor Jesus Cristo durante o Carnaval. Registrou em seu diário que o próprio Senhor lhe deu a conhecer as grandes e graves ofensas cometidas nesses dias:

“Nestes dois últimos dias de carnaval, conheci uma enorme quantidade de dores e pecados. Em um vislumbre, o Senhor deu-me a conhecer os pecados que foram cometidos durante esses dias no mundo inteiro. Desmaiei de espanto e, apesar de conhecer o abismo da Misericórdia de Deus, admirei-me com Deus ainda permitir que a humanidade exista. E o Senhor revelou-me quem são os que sustentam a existência da humanidade: as almas eleitas. Quando se completar o número dos escolhidos, o mundo deixará de existir”. [6]  

Unamos-nos em oração e reparação neste Carnaval e peçamos a Deus a graça da conversão dos pecadores. Santa Faustina ensina que devemos receber a Santa Comunhão e adorar o Santíssimo Sacramento, pedindo misericórdia por aqueles que, naquele momento, estão mergulhados na lama do pecado.

É importante notar que Santa Margarida e Santa Maria Madalena de Pazzi viveram no século XVII e Santa Faustina no início do século XX, num mundo muito diferente do atual. Já naquela época, Nosso Senhor lhes mostrava a perversidade dessa festa mundana. Se um só pecado é abominável diante de Deus, imaginem no Carnaval, quando são cometidos milhares de pecados de toda a espécie. É por isso que os santos, a fim de desagravar o Senhor de tantos ultrajes, aplicavam-se no tempo, de modo especial, ao recolhimento, à penitência, à oração e à adoração.

A pequena Santa Jacinta Marto, com a simplicidade própria das crianças, exorta a todos:

“Se os homens soubessem o que é a eternidade, fariam tudo para mudar de vida”.

É evidente que os divertimentos lícitos são permitidos, pois não levam ao pecado, mas não é este o caso do Carnaval. Quem poderá dizer que, ao frequentar este ambiente imoral, imodesto e pecaminoso poderá sair ileso? A indiferença de quem não professa a fé católica e despreza os apelos de Jesus já é esperada, mas que os católicos tenham a mesma conduta é um escândalo.

Neste carnaval, convidamos você a se unir aos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, subindo com Ele o Calvário e carregando a cruz, com desejo ardente de reparar tantas ofensas. Que estes dias sejam um momento de recolhimento, silêncio e oração em preparação para a Quaresma. Além das orações costumeiras, reze também este Ato de Desagravo e peça a conversão dos pobres pecadores que abusam da Misericórdia Divina.

Ato de Desagravo [7]

Amabilíssimo Jesus, não é tanto para receber os Vossos favores como para fazer algo agradável ao Vosso Divino Coração que quero, nestes dias, unir-me às almas que Vos amam, para Vos desagravar da ingratidão dos homens para Convosco — ingratidão essa que foi também a minha cada vez que pequei. Em compensação de cada ofensa que recebeis, quero oferecer-Vos todos os atos de virtude, todas as boas obras que fizeram ou ainda farão todos os justos, que fez Maria Santíssima e que fizestes Vós mesmo quando estáveis nesta terra. Quero renovar esta minha intenção todas as vezes que, nestes dias, disser: + Meu Jesus, misericórdia. Ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria, apresentai vós este humilde ato de desagravo a vosso Divino Filho e, por amor de Seu Sacratíssimo Coração, obtende para a Igreja sacerdotes zelosos que convertam grande número de pecadores.

Referências

[1] Padre André Beltrami. A Esposa do Sagrado Coração de Jesus: história da sua vida. 2. ed. bras. São Paulo: Escolas Profissionais Salesianas, 1932. p. 14.

[2] Santa Margarida Maria Alacoque. Autobiografia. Porto, 1936, p. 134.

[3] Ibid.

[4] Santa Margarida Maria Alacoque. Autobiografia. Porto, 1936, p. 45.

[5] Santa Maria Margarida de Pazzi. I Colloqui.

[6] Santa Faustina Kowalska. Diário: A Divina Misericórdia em minha alma. Dois Irmãos, RS: Minha Biblioteca Católica, 2021, nº 926, p. 295.

[7] Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I.